The Handmaid’s Tale e o governo Bolsonaro: uma premonição.

por Ricardo Slavec Abreu
Advogado e Psicanalista

The Handmaid’s Tale, é um romance da escritora canadense Margaret Atwood. Foi publicado pela primeira vez em 1985. Qualquer semelhança com a realidade aterrorizante em que hoje vivemos é mera coincidência. No livro, Offred, a narradora da história, uma criada na fictícia República de Gilead, formada por grupos extremistas religiosos que tomaram o poder com o intuito de salvar os Estados Unidos da América da corrupção e da promiscuidade, conta como após o país ter se tornado uma teocracia fundamentalista, as mulheres foram subjugadas e oprimidas, passaram de objeto sexual a coisa, a um bem jurídico, uma propriedade do Estado. O romance parece inspirado na Revolução Islâmica de 1979 mas suas reflexões são de como a aderência americana ao conservadorismo à eleição de Ronald Reagan como presidente, bem como o crescente aumento da direita cristã e suas organizações lobistas podem ser uma ameça à
sociedade democrática em um Estado de Direito. A influência não é um caso inusitado
que irrompeu graças a uma nova onda mundial nem ao que se chama de pós modernidade.

Não teremos a pretensão petulante de querer repetir o feito de Weber ao explicar a transição de valores em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905), porém, tentar enodar o fato de os evangélicos atados a ala partidária conservadora, já na década de 40, nos Estados Unidos, fundamentalistas de diversas denominações e regiões do país, terem engendrado a National Association of Evangelicals (NAE), com lobby em Washington e com agenda estendida no plano sócio-econômico e internacional.

Uma de suas reivindicações internas foi a proteção legal de radiodifusão evangélica e restrições na propaganda de álcool. Os fundamentalistas existem nos Estados Unidos desde 1906. Na década de 1920 ganharam notoriedade com a era do rádio. Muito acima disso, a aproximação da direita religiosa com a política republicana vem de longa data. No período que vai de 1940-60, o Grand Old Party (GOP – Partido Republicano dos Estados Unidos), tido como o partido do anticomunismo e da tradição moral, recebeu aproximação expressiva dos religiosos de direita.”A direita religiosa é um movimento de conservadores sociais cujo objetivo é a retomada da moralidade americana que, no século XX, esteve ameaçada pelo avanço do homossexualismo, feminismo e uso de entorpecentes, além do currículo evolucionista e do banimento da oração nas escolas públicas. Seu maior inimigo é o Estado secular, humanista e liberal, que deu espaço para a atual crise de valores – crescimento da promiscuidade, divórcio, índices de suicídio, eutanásia e aborto – e da família americana” (FINGUERUT, 2009, p. 142). Mesmo a candidatura do católico John Kennedy, em 1960, conseguiu aglutinar diversas lideranças do movimento religioso conservador.

Mais, desde a década de 1970, os conservadores religiosos ampliaram suas alianças e passaram a influenciar os temas da política republicana. Com a eleição de Reagan (político pessoalmente comprometido com as ideias da direita religiosa) os evangélicos obtiveram força necessária para incrementar o poder sobre o Partido Republicano. Vê-se como o campo político dos Estados Unidos na década de 1980 foi induzido pela aliança entre neoconservadores e direita religiosa. A ideologia evangélico-protestante foi ainda precursora do discurso pró-israel, muito mais do que o lobby israelita sobre a política externa norte-americana. Ou seja, ao construir e reproduzir uma formação discursiva que atribui aos judeus a representação de povo escolhido, a Israel, a representação de nação abençoada e que deve ser protegida pelos Estados Unidos cuja missão foi ordenada por Deus, a direita cristã inscreve como universal uma nova identidade à sociedade norteamericana.

Qualquer semelhança com o que vem ocorrendo no Brasil, não é mera coincidência, o neopentecostalismo no Brasil vem avançando não é de hoje, elegendo pastores e dando poderio econômico à determinadas denominações evangélicas. Mais ainda, feita essa breve divagação, na Administração Bush, a direita religiosa obteve de seu governo duas aberrações jurídicas, o Partial-Birth Abortion Act (2003) e o Unborn Victms of Violence Act (2004) os quais aumentaram o financiamento para campanhas educacionais de abstinência sexual. A gestão Bush diminuiu barreiras regulatórias e aproximou a sociedade civil religiosa do governo. Não tenhamos dúvidas de que não para por aí. São fatos jornalísticos e que foram por vezes discutidos por acadêmicos. Contudo, após essa breve digressão, voltemos à obra de Atwood.

Certamente, o puritanismo americano é a referência seminal da obra de Margaret Atwood. Ela fez conexões, assim como pretendemos fazer, entre o que estava acontecendo nos Estados Unidos na década de 1980 e os puritanos da Nova Inglaterra do século XVII, colonos calvinistas oriundos da reforma protestante.

Por outro lado, em O Conto de Aia, o quanto é assustadoramente premonitório a República de Gilead, no romance, ter sido estabelecida por um golpe fundamentalista cristão por adeptos repugnados com a sociedade excessivamente liberal e promíscua.

Como não sabem diferenciar liberalismo de libertinagem, assassinam o presidente, fuzilam o Congresso e instalam um estado de exceção. Surge a partir daí, como se pode entender, uma espécie de teonomia totalitária fundamentalista cristã. As mulheres são forçadas a uma vida casta de dedicação ao lar, passam a ser juridicamente coisas, propriedade do Estado para a execução dos serviços domésticos cotidianos e gozo de seus senhores.

The Handmaid’s Tale ressoa certamente como um grito feminista contra o sexismo. A obra de Atwood, entretanto, não pode ser tomada como mera ficção especulativa sobre como seria o poder exercido por um governo de extrema direita religiosa nos Estados Unidos.

Ela deve ser tomada como um aviso, como pressentimento. Não é necessário um esforço de imaginação a não ser o medo necessário da ameaça aos princípios democráticos.

Vivenciamos dia a dia as consequências advindas de um discurso ideologicamente tecido pelo fundamentalismo de direita religiosa. Todos dias nos assombra o conteúdo dessas mensagens de ódio, preconceito, ignorância, obscurantismo, de negação das verdades componentes do mundo. O que é pior, discurso cujo porta-voz é o presidente da República. Presidente eleito por meio de estratégia tecnológica consistente na divulgação de mentiras. Tática que passa despercebida por boa parte da elite intelectual do país e que representa um perigo à democracia. Uma prática antes restrita às estrategias de campanhas políticas norte-americanas, extrapolou as bordas da liberdade de expressão com a cominação do caso Cambridge Analytica, empresa que teria usado dados de milhões de usuários do Facebook para influenciar as eleições americanas de 2016 e os resultados do plebiscito sobre o Brexit. Hoje, no Brasil, ainda reverbera nas redes sociais a horripilante propagação de fake-news, como se fosse a propagação de um evangelho falso de inspiração extrema-direitista religiosa. Em setembro, antes das eleições – trauma que certamente guiará o real da vida brasileira por toda vida – houve, possivelmente, um hackeamento do Facebook para a formação de um banco psicossocial de dados em favor de Bolsonaro. O Facebook não respondeu a esse questionamento e não saberemos da verdade se não for investigado.

A ficção de Atwood não nos conta como as coisas aconteceram, porém, não fica difícil de prever uma obra contando como poderia ter sido com base nos fatos que circundaram as eleições norte-americanas e a brasileira. Atwood disse numa entrevista ter se inspirado em parte, na tentativa de Nicolai Ceausescu (ex-presidente da República Socialista da Romênia cujo governo ditatorial foi derrubado na Revolução de 1989) de aumentar as taxas de natalidade na Romênia, ter criminalizado o aborto, o uso de anticoncepcionais e ter estabelecido uma vigilância à menstruação das mulheres.

Mas o que está ocorrendo em nosso país não é da ordem de um governo ditatorial como foi o de Ceausescu, é a consignação, pouco a pouco, de um estado de exceção fundamentalista religioso. São ações que de forma sub-reptícia vão erodindo a democracia. Um decreto aqui e outro acolá, uma frase de ódio à democracia, desprezo às instituições e maneiras de tomar pelo discurso, a política de forma subalterna. Assim, a doutrina cristã está acima de tudo, acima da democracia, acima do Estado de Direito, acima dos direitos humanos, acima de tudo. Mas, o perigo maior está na aliança, no atrelamento de forças econômicas do neoliberalismo que odeia a democracia – pois ela lhe atrapalha a devastação e o uso das pessoas – com a ideologia fundamentalista de certos grupos que se dizem cristãos, para a qual, o poder político deve promanar de um deus e seu exercício deve ser o combate ao estado laico.

Não deixem os bastardos destruírem a democracia!

Referências:

FINGUERUT, Ariel. Formação, crescimento e apogeu da direita cristã nos Estados Unidos. In: SILVA, Carlos Eduardo Lins da (org). Uma nação com alma de Igreja: religiosidade e políticas públicas nos EUA. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/03/empresa-que-ajudou-trump-roubou-dados-de-50- milhoes-de-usuarios-do-facebook.shtml

https://www.dw.com/pt-br/opini%C3%A3o-igrejas-neopentecostais-amea%C3%A7am-democraciana- am%C3%A9rica-latina/a-42511616