O Simulacro do Desenvolvimento

A Ideologia persistente do Desenvolvimento: o simulacro do desenvolvimento no Brasil.

Por Jacqueline Vallejo

A ideologia do desenvolvimento aparece pós Segunda Guerra Mundial, criando polaridades: regiões e países pobres, com isso considerados atrasados, e regiões e países ricos, denominados avançados. O desenvolvimento passa a ser o instrumento de medida que identificaria em qual polo o local se encontrava, criando com isso categorias conforme o grau de desenvolvimento ou subdesenvolvimento, surgindo então a expressão “em desenvolvimento”. Baseado na entrevista dada a revista Em Pauta pela cientista social Miriam Limoeiro Cardoso, e que será a base desse texto, no Brasil, desde o governo de Juscelino Kubitschek a ideologia do desenvolvimento perpassa todos os governos se tornando um fim político. (2013, p. 211)

O crescimento econômico passa a ocupar espaço privilegiado e de maior importância em todos os setores, restringindo a crítica e a reflexão, sendo colocada de forma natural e progressiva, sempre voltada para o futuro, nos fazendo crer numa história linear e evolutiva. Ao certo, a ideologia do desenvolvimento cumpre seu papel na concepção do ideário da sociedade contemporânea, que tem na mídia seu principal canal de difusão da cultura hegemônica. Segundo Jameson, no texto “Pós-Modernidade e Sociedade de Consumo”, a cultura da pós-modernidade apresenta dois traços, pastiche e esquizofrenia. O primeiro aparece como uma imitação de um estilo, a sobreposição do real, o simulacro. Já a esquizofrenia, é a ideia de dissociação, uma percepção quebrada da temporalidade, a linguagem que materializada obsessivamente, enxerga no simbólico o real, é a palavra como coisa, que culmina no desaparecimento do sentido da história, perpetuando o presente. (1985, p. 18). Esses dois traços reiteram a lógica do capitalismo com sua sociedade de consumo e nos leva a concluir que a ideologia do desenvolvimento, para além do crescimento econômico, tem um marco ideológico fundamental dentro do projeto de expansão do Grande Capital, que com o intuito de criar “desenvolvimento”, busca o consenso na sociedade legitimando a implantação de medidas que agudizam nosso papel de dependência.

O simulacro do desenvolvimento no Brasil consolida a hegemonia norte-americana e a posição funcional do Brasil como país periférico dependente. Mas, para fazermos uma análise crítica dessa afirmação, se faz necessário refletirmos sobre os momentos cruciais onde essa ideologia, próximo a promover a possibilidade de rompimento com o sistema, se tornou refém de forças contrarrevolucionárias que direcionou suas ações no aprofundamento dentro da lógica da autocracia burguesa.

Nos anos sessenta, a industrialização restringida estava cedendo o lugar à industrialização pesada, implicando um novo padrão de acumulação. O modelo de desenvolvimento emergente supunha um crescimento acelerado de capacidade produtiva, penalizando fortemente as camadas trabalhadoras e permitindo um novo arranjo entre o Estado, o capital privado nacional e o capital estrangeiro. Esta expansão acarretou uma desaceleração do crescimento, alta inflação e queda na taxa de inversões. Nas condições brasileiras de então, as requisições contra a exploração imperialista, acrescidas das reivindicações de participação popular, apontavam para uma ampla reestruturação do padrão do desenvolvimento econômico e uma democratização da sociedade e do Estado. As lutas sociais, um novo bloco de forças político-sociais, poderiam desembocar num quadro revolucionário. A consequência seria a reversão completa daquela particularidade da formação social brasileira, resultando numa perspectiva de revolução social.

A sociedade brasileira se defrontava com um tensionamento crescente. A classe dominante consciente dessa evolução, e sintonizada com a contrarrevolução preventiva em escala mundial, impôs com a força o golpe, derrotando as forças democráticas, nacionais e populares. O movimento cívico-militar de abril foi reacionário, resgatou precisamente as piores tradições da sociedade brasileira. Seu real significado foi à destruição da possibilidade de superar a dependência e as amarras da economia brasileira aos interesses imperialistas e de democratizar fundamentalmente a sociedade brasileira. (NETTO, 2015, p. 40, 41)

Para Netto a contrarrevolução preventiva teve o patrocínio em escala mundial dos núcleos imperialistas, o contexto sócio histórico era a Guerra Fria, sob o hegemonismo norteamericano e numa conjuntura em que se modificava profundamente a divisão internacional do trabalho. Seus objetivos eram: adequar os padrões de desenvolvimento nacionais e de grupos de países, acentuando a internacionalização do capital; golpear e imobilizar a resistência (social e política), frente ao processo que conduzia uma relação de subalternidade e dependência dos países periféricos aos centros imperialistas; e, combater as tendências políticas e ideológicas alternativas ao capitalismo e/ou que levassem ao socialismo, no mundo inteiro. (2015, p. 30, 31)

Na visão de Ianni a economia política da ditadura apresentou três traços marcantes. O primeiro foi o planejamento econômico estatal, que se converteu em poderosa força produtiva. O aparelho estatal, a serviço do capital monopolista, foi desenvolvido, aperfeiçoado ou “modernizado”, tendo as esferas da vida social controladas para garantir a segurança para o desenvolvimento do capital. Todo o peso do poder estatal foi colocado ao dispor do capital financeiro. O Estado mobilizou recursos políticos e organizacionais, científicos e técnicos para favorecer, orientar, reorientar, dinamizar ou diversificar as atividades produtivas. Com políticas de isenções de impostos, incentivos fiscais, de créditos, avais e outras, o Estado favoreceu enormemente a concentração e centralização do capital, usando também recursos do fundo público para a acumulação do capital monopolista. Com o Sistema Federal de Planejamento, todas as forças produtivas, e relações de produção, foram desenvolvidas, conseguindo assim arrancar uma taxa extraordinária de mais-valia da classe operária. (IANNI, 1981, p. 43)

O segundo, Violência Estatal, técnica/política/economicamente, que também funcionou em poderosa força produtiva a serviço do capital, controlando a classe operária, favorecendo juntamente com o primeiro traço a extração de uma taxa extraordinária de maisvalia. Assim, o Sistema Federal de Repressão entrou no processo de acumulação do capital, garantindo e reforçando a subordinação econômica e política dos trabalhadores. A violência política era mais visível, mas não era a única, presente também nos locais de trabalhos e em todas as esferas da vida social. A violência Estatal passa a ser uma potência econômica. (IANNI, 1981, p. 43, 44)

O terceiro e último traço foi o Capital Financeiro, que passou a designar a expressão e ações do Estado, sob a ótica monopolista. O aparelho Estatal serviu a grande burguesia financeira, agindo em prol do desenvolvimento do capital financeiro e monopolista. O desenvolvimento do planejamento e da violência estatais, vistos como forças produtivas, foram condição e produto do crescimento do capital financeiro. Sob condições monopolistas, os três setores produtivos do tripé foram largamente articulados pelo capital financeiro, tendo na maioria dos arranjos o predomínio do capital imperialista, que passou a determinar todas as relações sociais. (IANNI, 1981, p. 44)

Ambos os autores apontam para o desenvolvimento como principal horizonte, que mascara as relações de exploração e dominação da grande burguesia transnacional, que comandam o processo de acumulação capitalista em escala mundial. Dessa forma, a ideologia do desenvolvimento no Brasil, conforme Cardoso, “em lugar de centrar a discussão na natureza das relações sociais que constitui a sociedade, a reflexão é deslocada para o que possa impelir “o desenvolvimento” e para o que possa dificultar ou impedir “o desenvolvimento””. (2013, p. 210)

De certo que fatores endógenos e exógenos fomentaram a ideologia do desenvolvimento no Brasil, principalmente com a globalização, e a imposição da lógica da divisão internacional do trabalho pelos países centrais, garantindo os meios de exploração e dominação, e consequentemente da desigualdade. O título de país em desenvolvimento, passa a funcionar como incentivo para seguirmos a cartilha dos países centrais com a utópica esperança que no futuro possamos desfrutar das regalias de um país desenvolvido.

Não se trata em negar a importância do desenvolvimento, mas alertar para onde essa busca está nos levando, crescimento econômico não pode ser entendido como sinônimo de desenvolvimento, e mais, no sistema capitalista, subdesenvolvimento de alguns países/regiões é determinante para o desenvolvimento dos demais. Procuramos, através da premissa que a ideologia do desenvolvimento reforça nosso papel de dependência, nos
afastando ainda mais da autonomia nacional, trabalhar com os traços da cultura pós-moderna, observando que o simulacro da ideologia do desenvolvimento consiste na perseguição de um modelo norte-americano, visto como ideal de modernização, mas que perpetuando o presente, está sempre localizado no futuro, que nunca chega.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Silene de Moraes; BECHER, Mariela Nathalia. Entrevista com Miriam Limoeiro Cardoso: A ideologia persistente do desenvolvimento. In: Revista Em Pauta, v. 11, n. 31. Rio de Janeiro: FSS/UERJ, 2013.

IANNI, Octavio. A ditadura do grande capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

JAMESON, F. Pós-modernidade e sociedade de consumo. Novos Estudos, CEBRAP, São Paulo, n. 12, p.16-26, jun. 1985.

NETTO, José Paulo. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós64. 17. ed. São Paulo: Cortez, 2015.