As Ideias Socialistas Chegam ao Brasil

Por Jacqueline Vallejo

Do livro intitulado “História das ideias socialistas no Brasil”, escrito pelo autor Leandro Konder, formado em direito, doutor em Filosofia e professor universitário, comunista e um dos maiores estudiosos do marxismo no Brasil, e que muito colaborou na introdução da obra de Lukács no país. Militou no Partido Comunista Brasileiro, foi preso, exilado, passou pelo MDB, PSB, PT, e foi um dos fundadores do PSOL. Tinha nos partidos um instrumento de fazer política. Essa obra foi editada em 2003, início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e Konder, provavelmente influenciado pelas possibilidades que se configuravam no panorama político da época, discorre sobre a chegada das ideias socialistas no Brasil, principais personalidades, revoltas, greves, do início do séc. XIX até a chegada do operário ao poder.

Ele destaca que as ideias socialistas foram elaboradas nos países europeus, onde a industrialização formou uma massa de trabalhadores explorados, pauperizados: o proletariado. Em países como França e Inglaterra, tornou-se evidente a realidade do proletariado, ao ponto de sensibilizar algumas pessoas que viam que as medidas tomadas pelos políticos liberais eram insuficientes para atenuar as expressões da questão social.

Já no Brasil e na América Latina, a realidade era outra, pois a exploração era voltada para os escravos, negros africanos, e a economia tinha como base a exportação de matéria prima predominantemente agrária. Final do século XVIII, a Coroa Portuguesa ainda proibia o funcionamento de manufaturas no Brasil, fazendo com que a importação fosse a forma privilegiada de obtenção de mercadorias como tecidos, relógios, remédios, móveis, etc.

Além da falta de industrialização, o território brasileiro, por sua imensidão, tinha com essa característica dificuldades com a comunicação e o transporte, com as maiores cidades localizadas no litoral, a atenção era focada para a metrópole, do outro lado do Atlântico.

Konder utiliza o conceito de tempos históricos distintos, para falar sobre as diferenças entre a sociedade brasileira e as europeias, as realidades diversas e os ritmos desiguais. Exemplifica apontando que no auge da atividade dos socialistas utópicos na Europa, aqui no Brasil ainda se lutava para se tornar um país independente.

Ele segue escrevendo sobre a dificuldade de organizar a população devido as diferenças de regiões e as distâncias entre elas, e que se já era difícil ser republicano, quiçá ser socialista. E as objeções não paravam por aí, os livros com os ideais socialistas, eram caros, de difícil compreensão, e impraticáveis a realidade da época. Mas, apesar de todos os intempereis alguns brasileiros começaram a se interessar por essas ideias novas.

Assim, Konder faz referências as personalidades da época, intelectuais brasileiros que foram influenciados pelas ideias socialistas. E continua demarcando as diferenças entre as sociedades europeias e a sociedade brasileira, enquanto na primeira o problema era a questão social, na segunda a questão era outra, questão servil. Porém, os intelectuais e
políticos brasileiros, admiradores da cultura europeia, em particular francesa, não podiam ignorar o socialismo, movimento que estava crescendo e sendo tema de discussões acaloradas na França.

O autor então começa a resgatar as repercussões do Comuna de Paris, a Primeira Internacional, e como os nossos políticos e jornais conservadores recebiam essas informações de fora e difundiam de forma negativa, apresentando as ideias socialistas como violentas e nocivas.

Entretanto, havia os simpatizantes e não demorou a aparecer os que estavam no exterior e podiam trazer informações fidedignas, corrigindo as distorções a respeito das ideias de Marx e participação no Comuna. Apesar de Marx ser considerado um sábio, um cientista que havia elaborado uma doutrina muito séria, onde historicamente as classes iriam se fundir, na “Associação dos Produtores Livres, baseada sobre a propriedade coletiva do terreno e dos instrumentos de trabalho”, aqui no Brasil, os intelectuais ou o ignoravam, ou tinham uma visão superficial e preconceituosa. Enquanto ele era admirado por grande parte dos socialistas europeus, aqui repercutia de forma abstrata e imprecisa.

Só foi possível vislumbrar um proletariado influente no Brasil após a abolição, que possibilitou a industrialização. Aos poucos foi se formando núcleos de trabalhadores, e consequentemente organizações sindicais e publicações especializadas para esses novos leitores. Mas foi na passagem do século XIX para o XX, com a chegada de imigrantes que se uniam ao nosso ainda em formação proletariado, que as experiências socialistas e as teorias anarquistas foram mais difundidas junto aos trabalhadores.

Neste capítulo, Konder relata a respeito das influências dos socialdemocratas e dos socialistas libertários, suas relações entre si, ora cordial, ora tensa. Como também suas atividades, seus campos, onde se concentravam e suas formas de pregação. Conclui que os anarquistas “impuros” conseguiram ser mais efetivos politicamente se integrando melhor junto as comunidades, em suas lutas, doutrinando e agitando quando necessário.

Ele lembra de alguns expoentes anarcossindicalistas, comenta que eles assumiram a hegemonia dos setores mais combativos do movimento operário nas duas primeiras décadas do século XX, falando que neste período aumentaram o número de greves, reinvindicações, fundaram uniões operárias, cooperativas e associações de auxílio e socorro mútuo.

Foi a partir das mobilizações dos trabalhadores que os intelectuais se voltaram de forma mais séria e dedicada a essas novas concepções. Várias foram as publicações a respeito das ideias socialistas, sejam romanceadas, sejam na tentativa de fazer uma interpretação socialista da realidade brasileira.

Konder encerra o capítulo fazendo sua última referência a dois intelectuais socialistas, destaques desta época, cada qual defendendo sua vertente, libertária e socialdemocrata. Em seguida cita o romancista Lima Barreto, anarquista que diante da Revolução Russa, declara num artigo de 11 de maio de 1918, que “A face do mundo mudou. Ave, Rússia!”.

Referências

Konder, Leandro. História das ideias socialistas no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2003. P. 25 – 40.