A Democracia Clama por Cuidados

por Artemis Zamis

O período de 1964 a 1985 foi sem dúvida um dos mais tristes, violentos e terríveis da nossa história. Desde a chegada do Gen Castelo Branco até o Gen João Batista Figueiredo, foram anos a fio de perseguição de desafetos,  censura a imprensa, cassação de mandatos políticos, fechamento do Congresso Nacional, focos de luta armada, tortura, milhares de mortos e desaparecidos, corrupção não investigada, aumento da desigualdade, endividamento do país e inflação sem controle. Quem viveu a tortura desse período carrega na alma e no corpo para sempre, as marcas que diariamente lhes rasgam a memória de tão insuportáveis momentos.

A ditadura na concepção moderna, segundo Norberto Bobbio, em seu livro Dicionário de Política, é um regime não-democrático moderno em que há uma acentuada concentração do poder e a transmissão da autoridade politica acontece de cima para baixo. O poder da ditadura tende a ser ilimitado, já que não é contido pela lei, pois o ditador sempre se coloca acima dela. Embora aparentemente sejam mantidas algumas normas jurídicas, quase não tem eficácia real nenhuma, visto que o ditador deliberadamente as ignora.

Desde 1985 com o fim da ditadura, o Brasil luta sem trégua, uma árdua batalha para manter sua tão ainda jovem democracia consolidada. Em 1988 o congresso nacional promulgou a nova carta magna onde o cidadão brasileiro foi finalmente alcançado, lhes sendo dado direitos bem definidos, deveres e garantias constitucionais devidamente asseguradas pela justiça em caso de qualquer violação. Foi o maior ganho para o povo e uma necessidade que a muito se anelava na redemocratização do país e no pós ditadura. São 32 anos de nossa Constituição cidadã onde conquistamos liberdade plena de pensamento e de manifestação. Direitos individuais que todos sem exceção tem assegurado.

Lamentável é sair às ruas hoje e nos depararmos com pessoas que defendem a volta do regime militar, o fechamento do congresso e do Supremo Tribunal Federal. Lamentável e absurdamente inacreditável é saber que tudo isso é incentivado e compactuado pelo presidente da República do Brasil, que foi eleito democraticamente por 57 milhões de votos. É lamentável nos depararmos todos os dias com uma declaração do presidente que sempre atenta contra a constituição e contra os poderes da República.

O Brasil e o seu povo anseiam por paz, por liberdade e por união de seu povo. O Brasil e seu povo não quer a luta, seja ela armada ou não. A única luta que queremos é a que o governo obrigatoriamente teria que travar contra essa terrível pandemia que assola as pessoas, e que já nos colocou em segundo lugar no planeta em números de mortos. Precisamos que a vida seja enfim colocada em pauta.

Hoje, temos no poder um presidente que tenta imitar os grandes ditadores da história, por admiração e até mesmo por idolatria, levando junto centenas de apoiadores que por ignorância, defendem o absurdo e a bizarrice.

Esta semana em uma live de rede social, o presidente incitou categoricamente seus apoiadores a invadirem hospitais, que tratam pacientes com a covid-19, para filmarem o seu interior na busca de provas se haviam leitos vazios. Não demorou para que fosse atendido. Um grupo de seis pessoas ousaram invadir o hospital Ronaldo Gazolla no Rio de Janeiro e com a truculência que já lhes é peculiar, hostilizaram médicos, enfermeiros e danificaram computadores e portas. Além do trauma causado aos pacientes e seus familiares que nem na dor puderam ter sua privacidade respeitada.

Mas, como citei acima, um ditador não observa leis. Antes as tem como mero subterfúgio para cometer absurdos, promover o medo e a consequente submissão de um povo.

A democracia clama por cuidados.

Não podemos abandona-la agora.

Ditadura nunca mais.

O Amanhã que nos Espera

por Artemis Zamis

É fato que nosso mundo globalizado foi pego de surpresa pela súbita chegada do novo coronavírus, e com isso uma catástrofe econômica mundial se avizinha e não será ela exclusiva do Brasil, nem de algum outro país em especial. Será planetária e exigirá dos governos a implantação de uma nova ordem mundial que atenda ricos e pobres, afetados ou não pela pandemia. Um novo normal chegará e nem sabemos direito como ele será de fato. Como será nosso consumo? Quais serão nossas novas necessidades e nossos novos desejos?

Bom, o que se sabe até agora de real mesmo é o que já vivemos com a recessão que chega com rapidez e força em nosso país. A atividade econômica tem seu pior momento e os números, da já combalida economia, já são os piores desde 1901. Segundo dados divulgados pelo IBGE, no primeiro trimestre de 2020 já encolhemos 1,5% em relação ao ano de 2019, efeito causado principalmente pela retração de 1,6% nos serviços, um setor que representa 74% do PIB. O setor industrial também caiu 1,4% e só a agropecuária teve o pífio resultado de 0,6% positivo. Não fomos diferentes dos outros países afetados pela pandemia, pois é razoável imaginar que com o fechamento dos estabelecimentos, as famílias confinadas fizeram com que setores como bens duráveis, veículos, vestuários, alimentação, academias, sofressem bastante com o necessário isolamento social.

O pior, contudo, são as previsões do mercado para este ano, que segundo o último boletim Focus divulgado pelo Banco Central, prevê uma queda de 5,89% do PIB esse ano, previsão pior que a do Ministério da Economia que estima em 4,7% a perda para este ano. Bom lembrar que as previsões do ministro da economia Paulo Guedes, em março, previa um crescimento de 1% no pior cenário do vírus. Logo em seguida, em torno do dia 20 do mesmo mês, baixou sua previsão para 0,2% de crescimento da economia, já dando leves sinais que poderíamos enfrentar uma recessão por conta da pandemia. Em abril, com o país já contando seus mortos pelo covid-19 na casa dos milhares e com medidas de isolamento já decretadas em vários estados, anuncia em uma reunião com senadores que o país teria uma queda de 4% do PIB em 2020.

O mundo não contava com a covid-19. E alguns países, inclusive o Brasil, subestimaram a doença e suas consequências. É fato que nenhum país fica de prontidão esperando que uma pandemia vai eclodir em algum lugar, com dia e hora marcada. Ela veio, e veio forte, pegando todos de surpresa. Está aí instalada e vemos as piores previsões para o pós pandemia. Segundo estudos feitos por especialistas da King’s College London no Reino Unido e da Australian National University (ANU), a crise econômica pode ser maior que a crise da saúde, e estimam um aumento de 400 a 600 milhões de pessoas em situação de pobreza.

É preocupante olhar esse quadro desolador. Mais desolador ainda, é não vislumbrarmos uma equipe econômica capaz de apontar caminhos consistentes, que promova uma abertura de redes de segurança social de maneira ampla e que atenda a todos sem exceção. A pandemia vai passar, infelizmente muitas vidas ainda serão perdidas por descontrole, por descaso, por incompetência e por desorganização.

Mas vai passar.

O futuro incerto nos faz olhar para o hoje, e no hoje, o que podemos fazer sem medir esforços é nos organizarmos para efetivas cobranças de mudanças no cenário político. As eleições municipais que se aproximam será uma grande oportunidade para que se mude radicalmente esse quadro pernicioso e o mais importante é que isso está em nossas mãos.

Pense, pesquise, leia.

O Brasil de um Governo Desqualificado

por Artemis Zamir

Enquanto o mundo assiste perplexo o tratamento que o bizarro, tresloucado e negacionista presidente Bolso Nero trata a mais terrível pandemia já vista no mundo globalizado, o brasileiro parece que anda anestesiado ou sob efeito de fortíssimos ansiolíticos, que os transformaram em meros espectadores da crise que diariamente é produzida seja ela por escândalos ou por atabalhoadas decisões do presidente ou de seu ministério do horror. O certo mesmo é que os mais sóbrios, podem sem nenhum grande esforço, constatar que hoje vivemos o período mais desanimador da política em toda a nossa história republicana. E o pior é que esse período vem justamente em meio a uma fase pandêmica, onde o governo em vez de agir e colocar todo o aparato da máquina a serviço do povo para promover o salvamento de vidas, o que faz é totalmente o contrário. Promove todos os dias confusões com governadores, prefeitos, intrigas com auxiliares, interferências em instituições como o Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal, Policia Federal, todos sem exceção. O governo é um desastre total.

Esta semana vimos estupefatos, a reprodução do vídeo de uma reunião ministerial ocorrida no dia 22 de abril, que mais parecia uma reunião de uma quadrilha, que propriamente de um presidente e seu ministério. Onde era pra ser tratado assuntos de governo, assuntos para o país e seu povo, assuntos referente a pandemia que assola o mundo e o Brasil que já é o segundo em casos em todo o planeta, vimos foi a combinação de crimes e até seus modus operandi, dissertados não só pelo presidente, mas também por vários de seus ministros. Do presidente, pode-se ver seu desejo em transformar a Policia Federal em sua Polícia Política para proteger a si e sua família, que hoje enfrenta várias denúncias tanto no Ministério Público como na própria Policia Federal. Dos ministros, podemos ver do Sr. Weintraub, a declaração de que odeia o termo “Povos Indígenas”, e que os vagabundos do STF (Ministros) teriam que ser presos a bem de suas ideologias tacanhas e tóxicas. O Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, protagonizou talvez o momento mais terrificante ao declarar “Precisa ter o esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid, e ir passando a boiada, ir mudando todo o regramento e simplificando normas, de Iphan, de Ministério da Agricultura, Ministério do Meio Ambiente, ministério disso, ministério daquilo”, disse Salles. O ministro Paulo Guedes mostrou a todos a que veio e a quem serve. Mostrou que são os bancos e grandes empresas seu alvo de investir o dinheiro público e não os micros e pobres empresários que são pra ele, a plebe que talvez precise ser extinta. Enfim, tinha de tudo, menos projetos e programas para o país e seu povo. Vimos um presidente desqualificado, despreparado administrativamente, politicamente e humanamente. Pessoa mal educada, boca suja e desrespeitoso com seus auxiliares.

É urgente que as instituições constituídas se articulem e salvem o país. Urge que tirem esse tirano do poder antes que o fascismo se estabeleça em toda sua plenitude no seio da sociedade.

O principal assunto em todo o mundo é o combate a pandemia ocasionada pelo vírus Covid-19. As secretarias estaduais de Saúde, confirmam hoje no país 352.744 novos casos do novo coronavírus com 22.291 mortes. Já somos o segundo país no mundo em número de casos confirmados da doença, atrás apenas dos Estados Unidos. E apesar de todos esses números alarmantes, temos um presidente focado apenas em criar crises das mais diversas possíveis em seu governo. Não tem casos no mundo em que um líder tenha atacado tanto o seu ministério da saúde como aqui, onde chegou a trocar de ministro duas vezes em menos de 60 dias. Hoje, no órgão que é o responsável pela administração da crise está colocado como ministro um general especializado em logística e que por sua vez, ao invés de se cercar de notáveis da saúde, aparelhou toda a estrutura do órgão com tantos outros militares. O governo demonstra todo o seu desapreço por seu povo e pela doença. Prega a minimização da pandemia e acha que a imprensa exagera na divulgação de notícias ruins como a realidade das mortes e dos parentes que não podem celebrar o enterro de seus entes queridos. A desumanidade com que trata as pessoas, seus compatriotas, é inacreditável, assustadora e indigna. 

Não temos ainda a noção exata do que nos espera após a pandemia no Brasil e no mundo. O que sabemos é que nada será como antes. Economistas renomados já alertam que centenas de milhões de pessoas serão empurradas para a extrema pobreza. A fome atingirá outras milhões de pessoas e as economias mundiais não se reerguerão a tempo de suprir tantas necessidades que são sempre mais velozes que os números contábeis. Mudarão com certeza nossos costumes, nossas rotinas e nossa maneira de viver no mundo. Novas tecnologias deverão surgir com maior rapidez para ajudar na vida das pessoas e o mundo será de fato bem diferente daquele que conhecemos. Nossa desvantagem é que seguiremos sempre atrás das grandes potencias pela inercia, inabilidade, despreparo e desqualificação deste governo.

O Brasil precisa encontrar novamente o rumo do desenvolvimento, do progresso e do bem estar das pessoas. Mas não deve ser antes de cuidar da saúde do seu próprio povo. Não tem como se admitir uma economia forte sem um povo igualmente forte. Não será jamais com ideologismos morais, de costumes ou fundamentalismos religiosos que chegaremos a algum lugar. Chegaremos sim, mas com um estado laico, livre, democrático, onde as instituições, a imprensa e o povo, tenham suas liberdades garantidas e exercidas dentro do que determina a nossa Lei Magna. Basta dessa paranoia de comunismo, basta de imaginar inimigos atrás das portas, basta de perseguições, basta de mentiras, basta.

Estamos confinados e não temos tempo, nem meios para ocupar as ruas e lutar para promover as mudanças que o Brasil precisa. Resta-nos, contudo, no meu modo de ver, a obrigação de todos nós, em cobrar àqueles que ajudaram no passado a viabilizar esse governo, a corrigir e promover as mudanças que precisamos para que saiamos e rápido desse abismo profundo que nos lançaram, sejam eles instituições setores de classes sociais e imprensa em geral. 

A hora é de lutar por uma nova ordem democrática e por uma verdadeira libertação de um fascismo já em andamento.

O Adiamento do Direito

por Otávio Carvalho

Desde os primórdios de janeiro, via internet, acompanhava-se a rápida difusão do vírus, ou seja, somado a propagação quase sem controle e uma onda crescente de negacionismo para com a ciência mundial, ainda além, acrescido de uma agenda federal de descrença no poder do COVID-19, tornou-se pertinente que a batalha contra este, no Brasil, seria extensa e cruel, devido uma falta de ações para preparar o sistema de saúde e sobretudo, difundir medidas de segurança básica, portanto a soma do contexto histórico brasileiro conjuntamente com a cultura popular de não respeitar normas e a promoção dessa conduta conspiracionista, de forma terrível, evidenciava que o embate contra o coronavírus viria a ser longo e de duas faces, combatendo o vírus e a descrença de que o único ‘remédio’ – por hora – seria o isolamento social.

Manter o ENEM na data prevista, é um descaso genocida contra a educação brasileira, se faz necessário ser totalmente contra o não adiamento, tal que, estamos todos imersos em um período de provações e dificuldades que atingem expressivamente toda população mundial, portanto ser a favor do adiamento deste, surge como um assunto extremamente polêmico. O Exame Nacional do Ensino Médio, permutando entre diversos períodos, firmou-se como um importante instrumento de consumo – ao contrário do senso comum que afirma bravamente que permite o acesso, fato que não ocorre pois questões variadas não foram mudadas e a estrutura social desigual, ainda que mitigada, continua no mesmo norte – as universidades públicas, através do próprio ENEM e também com outros mecanismos como SISU, ProUni e FIES.

Manter o calendário proposto para o ENEM – seria um problema enormemente incontrolável no presente governo, visto que, a redução das desigualdades sociais não é presente na agenda educacional atual, tal qual falas do ministro da educação que afirmara que o ENEM não serve para corrigir tais -, o adiamento se faz a única alternativa que, minimamente diminua o absurdo grau de disparidade social entre rede privada x rede pública, classe carente x classe rica, uma vez que com a suspensão das aulas, a grade curricular será afetada bruscamente, não será possível o êxito em cumpri-la por completo e isso prejudica não um grupo, mas todos os que se propuserem a realizar a prova, ainda que tenha pontos positivos e negativos para os dois lados da “disputa”, pois, como alguns ainda insistem em reproduzir o discurso de exclusão de que isso beneficiaria, tornando talvez mais fácil a prova e adequada ao calendário, isso na prática não acontece e ainda surge o discurso que propaga que as cotas servem para isso, pois bem, há muitas coisas que não falam na escola, e uma delas é que cota não é esmola (Bia Ferreira, canção Cota não é esmola).

Nesse período que estamos todos sendo surpreendidos pela pandemia do COVID-19, estudar tem sido quiçá a tarefa mais trabalhosa aos estudantes do mundo e sobretudo do Brasil. Há os que estudam normalmente, abstendo-se do mais puro e pequeno senso de humanidade e compaixão, em estado de êxtase, não sofrendo nenhuma influência com todas as notícias terríveis diárias e, tirando proveito da situação excludente para com seus semelhantes de classes inferiores, os que possuem condições e exercem alteridade, sofrendo com o cenário cruel de mortes e contaminados que não conseguem manter uma saúde mental necessária para o imperativo estudar e por fim, aqueles que se quer acesso à internet podem usufruir, e é sobre estes que se trata a polêmica, pois a dificuldade do estudo nesse momento é seletiva, de forma que limita pela classe que o sujeito pertence e também ao grau de preparo por parte do aluno à conseguir foco e disciplina direcionadas para o estudo, de modo a cumprir as atividades propostas via EAD – que majoritariamente é a forma como a classe estudantil agora usa para o ensino – e também, da necessidade dos professores terem de se reinventar da noite para o dia, tarefa muito árdua, logo, preparar-se é quase impossível dessa forma, pois a necessidade do calor da sala de aula torna a aprendizagem muito mais lúdica e proveitosa e não menos importante, quanto mais tempo sem esse meio permanecermos, até que seja humanamente seguro e sem absolutamente nenhum risco à população, o ensino será afetado de maneira nunca vista. Relatos do país inteiro, evidenciam que mais do que nunca as desigualdades socioeducacionais foram tão fortes e agravadas, surgidas com a agenda neoliberal pseudo assistencialista de mercantilização de direitos básicos como a educação – que é garantida pela constituição brasileira, como também é obrigação do Estado provê-la, ou seja, torna pertinente as palavras do querido, Cazuza, que nos faz refletir sobre a quem interessa que a prova seja mantida ou adiada, porque mantê-la é decretar partido para o lado contrário da promoção do bem estar: Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim; qual é o teu negócio, o nome do teu sócio?

O adiamento do ENEM, torna-se então a única maneira plausível de ação. Inertes no sistema de produção capitalista, os milhares de jovens mas sobretudo seres HUMANOS, sonham com a oportunidade de mudar de vida e talvez o ENEM a única, já que, têm sua liberdade cruelmente condicionada às condições econômicas, ou seja, são aquilo que possuem. Desse modo, não adiar o que é o último sopro de esperança para o nosso país, que possibilitaria que mais artistas, engenheiros, médicos, professores e todas as demais carreiras nascessem, mas sobretudo que a população brasileira tivesse a oportunidade de tornar-se humana de fato, tendo garantido o seu direito de estudar. O contrário disso seria colocar uma pá de concreto em cima da humanidade em nosso país e decretar descaradamente que o lucro é mais importante que a vida e ainda, que a educação não serve de nada a não ser formar alienados e analfabetos funcionais. Portanto é obrigação de todo estudante e de todo brasileiro lutar pela manutenção do Exame Nacional do Ensino Médio e pelo futuro da educação, eliminando as distinções bárbaras entre classes sociais antagônicas, fundando um futuro social melhor que só é possível se pequenas medidas como o adiamento do ENEM 2020, tornarem-se realidade, a ponto de incluir e promover o único meio tal qual a nossa população tão aguerrida tem para se defender de pandemias – a educação de qualidade -, assim sendo, promovendo o sentir no mais profundo de cada um, qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.

Quando o Vírus Passar

por Artemis Zamis

Quando o vírus passar, me restará o sonho.

Restará sonhar com um mundo mais igualitário, por que não? Um mundo onde possamos todos ter o governo que sempre almejamos, com distribuição de renda, salários dignos, pleno emprego e respeitado em todo o mundo.

Quando o vírus passar, quero que todos tenham deixado para trás a dupla tragédia que nos assola nos dias de hoje, o vírus e o presidente do país.

Quando o vírus passar, sonho com a esperança de volta, sem pessoas dormindo nas ruas, sem crianças nos faróis, sem violências domésticas, sem choro, sem fome, apenas vida.

Quando o vírus passar, sonho em não ver nunca mais pessoas debochando dos mortos e das famílias que perderam seus entes queridos na pandemia. Sonho com seres humanos de verdade que se importarão com o seu semelhante e com a natureza.

Quando o vírus passar, sonho com a humanidade mais irmã, mais solidária, mais assistida. Sonho com crianças bem educadas, idosos felizes e todos com muita saúde.

Quando o vírus passar, quero caminhar por uma estrada de chão batido, com árvores frondosas nas duas margens e por onde possa ver entre suas espessas folhagens, os raios dourados do sol tentando alcançar o chão surrado pelo vai e vem de carros e pessoas. Eu sei que no fim dessa estrada tem uma cascata que escorre por uma pedra branca e forma uma piscina geladíssima de borda infinita sobre seixos, cada um com sua forma, sua beleza e sua particularidade. Então é o momento de contemplar o arco-íris que está bem ali na minha frente e lembrar que é de lá que vem toda essa esperança e esse sonho de que quando o vírus passar tudo mudará pra melhor.

Quando o vírus passar, eu tenho a certeza de que novas mentes e novas ideias haverão de permear nosso universo. Eu sonho que o ódio, a violência, o racismo, a misoginia e todos os males que hoje nos jogam na cara todos os dias deste governo perturbador, serão varridos por uma onda de civilidade e de conscientização.

Quando o vírus passar, sonho que a intolerância, o ódio, a agressividade a impaciência, a estupidez, a mentira, terão sido banidas de nossas vidas, junto com os cala-bocas, as bananas, o resfriadinho, a pandemia é só uma neurose, minoria que se curve a maioria, a festa danada das empregadas domésticas, tudo isso, tenham também sido só um passado tenebroso.

Quando o vírus passar, sonho que um povo forte se levantará de todos os cantos do mundo, que serão como nuvens de chuvas, só que carregadas de vontade intempestiva de semear no novo mundo, o amor, a paixão, o trabalho e a liberdade.

Quando tudo isso passar, eu só quero ouvir no fim do arco-íris, o canto da sereia entoando Sinônimos de Zé Ramalho, nos versos :

“Quem tem amor na vida tem sorte
Quem na fraqueza sabe ser bem mais forte”

Quando tudo isso passar, seremos nós os responsáveis pela reconstrução desse mundo melhor.

Os Modernos Senhores de Engenho

por Artemis Zamis

Era junho de 1720 quando o Bispo Monsenhor Belsunce, atônito, percorre as ruas de Marselha na França para confortar pessoas que morriam nas ruas vitimas da peste negra. O chefe de policia, Cavaleiro Roze, se viu obrigado a libertar mais de 200 presos, para que pudessem ajuda-lo a incinerar milhares de corpos que se acumulavam nas ruas. Eram mais de mil mortos por dia. Em dois meses, Marselha viria a perder metade de seus 100 mil habitantes vitimas da peste que assolou a cidade naquele ano. Tanto o Monsenhor Belsunce, como o chefe de policia Roze, não imaginavam que toda aquela mortandade de seus compatriotas tinha seu começo no navio Grand Saint-Antoine que chegara ao porto de Marselha, no dia 25 de maio daquele ano, carregado de valiosos tecidos e fardos de algodão totalmente contaminados com o bacilo de Yersin que seria o causador da peste de Marselha, ou segunda epidemia da peste negra na França.

A regra de que o navio, primeiro, deveria ficar em quarentena antes de ancorar, não foi cumprida em face da forte pressão dos comerciantes locais, que no afã de seus valiosos lucros, armaram um complô com os proprietários da embarcação para que evitassem a comprometedora quarentena e promovessem a ancoragem e o imediato desembarque da carga, com o único intuito de proteger seus ganhos e evitar perdas na economia local. Além dos tecidos contaminados, 10 tripulantes já estavam com os sintomas e foram eles os responsáveis pela proliferação mais imediata na população.

Hoje, em abril de 2020, o Brasil e o mundo passam pela maior  pandemia já ocorrida no planeta que é a do Covid-19, que já matou mais de 214 mil pessoas no mundo, com quase 4 milhões contaminados. O Brasil já passa a China em número de mortos, chegando ao total de mais de 5 mil óbitos em todo o país nos últimos 42 dias. Foram 474 óbitos só nas ultimas 24 horas, até o fechamento desse texto. Corpos estão sendo enterrados em Manaus-AM empilhados, e algumas famílias estão sendo obrigadas a enterrarem seus parentes com as próprias mãos, por falta de coveiros disponíveis.

Não tivemos nenhum Gran Saint-Antoine como emissário desta pandemia. Não temos nenhum Bispo Belsunce e o chefe de polícia Roze não está mais aqui pra ajudar a enterrar corpos que se acumulam em todo os lugares do país. O que temos aqui, como em Marselha, são os mesmo cruéis e gananciosos empresários que esta semana promoveram uma das mais deprimentes e grotescas cenas na Paraíba, onde obrigaram seus funcionários a permanecerem de joelhos em frente as suas lojas para pedirem a reabertura do comércio e o fim do isolamento social, com o mesmo intuito e as mesmas razões daqueles de 1720. É o nefasto capital e seus modernos senhores de engenho montando no proletariado submisso, em troca de migalhas de salários. Estão respaldados pelo governo neofascista que se instalou no país e que apoia e incentiva o fim do isolamento social, indo de encontro a todas as recomendações da OMS e autoridades de saúde.

O presidente do país trata a pandemia com o mais infame e cruel desdém, que só vimos nos livros de histórias, sobre os mais sanguinários governantes que já passaram por entre nós humanos. No auge da pandemia, com hospitais sem leitos, médicos tendo que escolher quem vive e quem morre por falta de respiradores, o presidente prefere ir a um stand de tiros treinar. Seus últimos dias tem sido ocupado por criar confusões, todo tipo de atrito, denúncias de ex-ministros, nomeações suspeitas, divulgações de mentiras, declarações estapafúrdias. A incompetência e o despreparo não só dele, mas de toda a sua equipe, é assustadora e vergonhosa. Não podemos deixar de creditar todo esse insucesso a todo esse governo que mais parece uma orquestra de instrumentos desafinados. Contribuem, e muito, para que nossa estatística pandêmica seja uma das maiores do mundo. A vida não tem valor algum. Apenas o lucro importa.

Bolsonaro precisa ser retirado de seu cargo. Não importa qual o caminho agora. Importa apenas que seja retirado. Não é nada razoável, como muitos pensam, que tenhamos que largar o presidente cometendo crimes todos os dias para nos dedicarmos a pandemia, e só depois cuidar de tirá-lo. O Brasil sem Bolsonaro sai da crise econômica e da pandemia muito mais rápido que com ele. Só o povo unido e ninguém mais, somos capazes de mudar. Fora Bolsonaro e todos esses modernos Senhores de engenho, que embora não tenham sido contaminados pelo vírus impregnados nos tecidos e nos fardos de algodão de Marselha, foram contaminados pela insensatez e pela ganancia capitalista vergonhosa e nefasta dos dias atuais, promovendo e ajudando a dizimar seus concidadãos.

“Não sois máquinas! Homens é que sois!”
Charles Chaplin

Pense nisso e…

Fique em casa.

Um Olhar de Esperança

por Artemis Zamis

Da janela do quarto agora, posso ver passar alguns transeuntes, uns com mascaras, outros sem, olhares cabisbaixos, passos curtos, braços que nem se mexem, parecem perdidos, e alguns deles olham apenas o horizonte, um pouco escuro pelo cair da tarde e com o céu em nuvens opacas prometendo talvez uma chuva que as vezes nunca vem. Mas continuam passando. Uns com sacolas de supermercado não muito cheias, outros com algumas frutas e passam. Apenas um jovem passa em uma bicicleta já meio surrada e pedala rumo a algum lugar que nem ele mesmo talvez saiba. Um outro passeia com seu skate. Escurece um pouco mais. Aquele movimento intenso de pessoas vindo de seus trabalhos, outros descendo dos ônibus exaustos de seus afazeres do dia a dia, apressados para chegarem em suas casas e tomarem seus banhos,  outros com seus carros vindo de festas, bares, shows, trazendo consigo ainda cheiro do último gole de cerveja, não existe mais. Restou apenas a rua agora. Acenderam as luzes dos postes de concreto e vejo apenas a penumbra. Um vento leve traz um friozinho próprio das noites de outono, e ouço apenas o farfalhar de folhas de algumas poucas árvores que sobraram na rua larga, de calçadas também largas e bem acabadas, com caprichos peculiares de cada morador.

A pandemia mudou tudo. Mudou a minha rua, mudou o meu bairro, a cidade, o país, o mundo. Mudou a vida das pessoas, mudou as perspectivas, mudaram-se os sonhos. Foi tudo rápido como um flash, dormimos em um país já conturbado pelas leviandades de um governo tosco e acordamos em outro mais conturbado ainda. Nos separamos de nossos filhos, pais, irmãos, amigos queridos e nos isolamos para tentarmos sobreviver e nem é ainda certo que isso acontecerá. A cada noticia surgida na TV sobre a pandemia, me deixa um pouco mais distante do futuro e mais perto das incertezas.

Assim como eu, todos nós queremos em breve olhar de nossas janelas e reviver os bons tempos das crianças jogando bola na rua, as pessoas andando apressadas rumo aos seus compromissos, rodas de bate-papo, o churrasquinho da esquina lotado, o cheiro de café da padaria e até ouvir as sirenes das fábricas. Queremos um novo amanhecer, onde renovados de espírito e força, possamos nos juntar e reconstruir nossas estruturas, nossos esteios familiares, nossas casas.

Desta janela, ao olhar o horizonte, só vejo o escuro da noite se confundindo com o negro do céu onde apenas 3 estrelas teimam em cintilar. A brisa fria cessou e agora só há o tempo, estático e perturbador. Nenhuma folha se mexe, nada se movimenta. Volto para dentro de mim e penso nos que neste momento lutam pela vida, pelos que perderam seus entes queridos, pelos que ainda vão perde-los, pelos que lutam com a ansiedade, os que no seu isolamento estão sós, longe de quem gostam.

Mas penso também que fomos feitos e dotados de uma força incomensurável, que nossas vidas sempre foram feitas de lutas e glórias. Que sempre renascemos das adversidades. E vai ser assim de novo. Uma nova manhã se aproxima, juntaremos nossos pedaços caídos pelo chão da sala, do quarto e nos reergueremos melhores, mais sábios, mais amigos, mais solidários, mais gente. Nessa manhã, quero estar nesta mesma janela e assistir sorridente e com um suspiro forte, o revoar dos pássaros, o barulho ensurdecedor da cidade, a correria dos transeuntes, a buzina dos carros, a vida passeando de novo. Acreditemos nessa manhã.

Olhe a janela.

O que você precisa saber sobre Coronavírus?

por Felipe Arthur Faustino de Medeiros
Residente de Infectologia
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Saindo um pouco dos temas relacionados à saúde LGBT diretamente, trazemos hoje um papo mais direito sobre Coronavírus, esse vírus respiratório que iniciou sua aparição no final de 2019, com grandes notícias nos últimos dias, trazendo muitas informações, muito questionamentos para várias pessoas e várias dúvidas. Tentarei aqui tirar algumas breves, trazendo em tópicos pra facilitar o entendimento de todos.

O que é o Coronavírus (também chamado de COVID-19)?

Coronavírus é um vírus que causa doença no trato respiratório das pessoas (doença nas vias áreas – garganta, nariz, seios da face, traqueia e pulmões). Acredita-se que o vírus tenha vindo inicialmente dos morcegos, e hoje sua transmissão seja pessoa-a-pessoa atrás das secreções do trato respiratório (saliva e tosse, por exemplo).

Quais os sintomas que podem ser observados em quem tem Coronavírus?

As manifestações são semelhantes às de uma gripe, como febre, coriza, tosse, dor de garganta, dor de cabeça, dor pelo corpo todo, dor muscular, falta de vontade de realizar as atividades diárias, ou até sintomas mais graves como falta de ar intensa, dificuldade de respirar, sonolência extrema e quedas de pressão importantes.

E como eu pego Coronavírus? Tem como evitar?

A transmissão da infecção por COVID-19 se da por contato com secreções respiratórias, como já dito, entre pessoas infectadas e não infectadas. Secreções essas as das vias respiratórias, ou seja, saliva e secreção que vem dos pulmões ao tossir ou escorrer do nariz.

Para evitar o contágio, pessoas sintomáticas respiratórias devem ficar afastadas do convívio social, tendo seu isolamento domiciliar. Em caso de necessidade de acessar locais públicos, a mesma deve utilizar máscara cirúrgica (aquela simples mesmo) para proteger os demais do contato com suas secreções. Além disso, é importante que TODAS AS PESSOAS utilizem álcool gel ou lavem as mãos com água e sabão ao ter contato com superfícies que possam ter secreções (corrimão de escada, apoios no transporte público, após tossir ou espirrar etc). É importante lembrar que o vírus pode ficar em superfícies algumas horas até morrer, por isso sempre que tiver contato com alguma superfície lave sua mão imediatamente, e não leve ela até boca, nariz ou olhos, pois esse locais são porta de entrada para o vírus entrar no seu corpo e disseminar a doença.

Eu devo procurar atendimento médico então em caso de algum desses sintomas?

Casos leves, semelhantes à gripe, sem repercussões de sintomas graves, devem se manter em casa atualmente, se afastando das atividades diárias, dos contatos com outras pessoas, tomar bastante líquido e em caso de dor ou febre, utilizar analgésicos para dores e febre e aguardar os sintomas melhorarem, que cessam em até 15 dias. Em casos mais graves, com febre que não melhora, falta de ar intensa ou quedas de pressão importante, você deve procurar imediatamente o pronto socorro mais próximo da sua residência para atendimento e orientações.

Quem são as pessoas que tem mais risco de ter doença grave?

Alguns grupos são considerados “grupos de risco” para doença grave, sendo eles pessoas idosas, pessoas que tem hipertensão (pressão alta), diabetes, pessoas que tomam medicações imunossupressoras

E o que devemos fazer nesse momento para evitar uma piora da nossa situação de Pandemia?

Se você pode, FIQUE EM CASA! Quarentena é uma realidade, precisamos parar a disseminação do vírus, ou ao menos diminuir a velocidade com que ele se espalha.

No último dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia para Coronavírus, alertando os países dos riscos associados à infecção, além de orientações na tentativa de barrar o avanço do número de casos. Seguir essas orientações ajudam a diminuir o número de casos a cada minuto, tentando minimizar a necessidade de internação e suporte intensivo para o tratamento do COVID-19, não sobrecarregando o sistema de saúde de uma só vez.

Além das medidas já citadas de caráter pessoal, como lavar as mãos e uso de máscara aos que tem sintomas, a quarentena é uma atitude que ajudará bastante a diminuir a disseminação dessa doença de transmissão respiratória. Por isso, eu reforço: se você pode trabalhar de casa, se sua empresa vai parar as atividades, sua escola ou faculdade não terá aulas, fique em casa. Maratone sua série, veja filmes, ouça música, medite, leia, porém não saia de casa se você pode. Nós profissionais de saúde estamos trabalhando para manter o atendimento aos que precisam, por isso não se exponham à riscos desnecessários e nos ajude a controlar a disseminação.

Muitas notícias estão sendo veiculadas todos os dias, e grande parte delas são fake News. Ainda não temos uma medicação ou tratamento que se mostre plenamente efetivo no combate ao Coronavírus, muito menos medicações para prevenir seu contágio. Não utilizem medicações sem prescrição médica. Não sabemos até quando teremos que ficar em isolamento social, quarentena, desviando nossas rotinas, porém pensemos nisso como uma atitude coletiva para segurar o Coronavírus e que logo tudo isso seja uma grande memória de vitória coletiva para todos.

Prevenção Combinada: o Melhor dos Remédios

por Felipe Arthur Faustino de Medeiros
Residente de Infectologia
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Fevereiro no fim, levando com ele a grande festa brasileira: o Carnaval. Depois de muitos embalos e folias por todos os cantos do país, temos um grande momento para falar sobre prevenção para aquisição de HIV e outros IST. E aí, você que está lendo pode estar se perguntando: mas prevenção não vem antes? Pois é nesse contexto que entra esse texto trazendo algumas informações bem importantes sobre como se prevenir antes, durante e depois do sexo.

O conceito de prevenção combinada, voltada ao combate ao HIV e situações associadas a infecção, traz consigo ações biomédicas como por exemplo, o uso de PrEP, da PEP e o tratamento de todas as pessoas que convivem com HIV visando uma carga viral indetectável), ações comportamentais (como a testagem regular para HIV e outras IST e Hepatites Virais) e também intervenções estruturais, as quais são voltadas para abordagens com políticas públicas, aspectos socioculturais e econômicos, visando a garantia da abordagem do tema e garantir meios para que a mesma ocorra.

Abordarei nesse texto apenas partes do grande conceito da prevenção combinada, tentando trazer dois aspectos que julgo importantes nesse momento, pensando que a exposição já aconteceu. E ela pode ocorrer de diversas formas: o preservativo estourou, não se usou preservativo na relação de penetração, ou teve contato com sêmen na boca no sexo oral, compartilhou seringas no uso de substancias injetáveis etc. São várias maneiras de entrar em contato, mas o que não cabe em nenhum momento é o julgamento de certo ou errado nas atitudes tidas por você ou por outra pessoa durante o sexo, e sim o esclarecimento e busca por auxilio.

Se você se expos numa relação sexual, com contato com fluidos corporais, sem uso de proteção ou método de barreira, sem saber o status sorológico da mesma ou mesmo sem saber seu próprio, é hora de buscar um local para realizar a testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.

A testagem em centros de testagens e aconselhamento (CTA) é gratuita e disponível para todos que quiserem a mesma. Normalmente são realizados testes para HIV, Sífilis, Hepatite B e Hepatite C, sendo os mesmos na forma de testes rápidos, e em menos de uma hora a pessoa pode sair com todos esses resultados em mãos, acompanhados de aconselhamento por um profissional e saúde capacitado, além de encaminhamentos em caso de necessidade de acompanhamento e tratamento para as mesmas.

É sempre bom lembrar que se a exposição ocorreu hoje ou ontem, o teste que você faz pode não vir positivo. Temos que lembrar que as doenças tem suas janelas imunológicas, tempo em que o sistema imune demora para detecta-la e produzir anticorpos contra a mesma, mostrando assim a positividade nos testes. Por isso, a testagem regular é uma grande ferramenta de prevenção e pode ser realizada sempre que a pessoa se expor à uma situação em que julgue de risco de adquirir IST.

Pensando no agora, estourou a camisinha, eu não conheço ele/ela, o que eu faço? Os CTAs também são porta de entrada para a realizar de PEP (profilaxia pós-exposição), que consiste num método biomédico para a prevenção da aquisição do vírus do HIV. Após a exposição, você tem até 72hrs para buscar atendimento e iniciar a terapia antirretroviral para a profilaxia pós exposição.  Nesse método, a pessoa exposta tomará 28 dias de medicação para impedir que vírus entre em seu sistema e cause a infecção propriamente dita. Além da medicação, o acompanhamento será realizado de forma continuada e não apenas pontual, pois como dito anteriormente, a medicação serve para a prevenção apenas do HIV, e não das demais IST.

Temos que entender que a melhor forma de se prevenir é conversar sobre, se esclarecendo das formas de contágio das infecções, realizar testagem regular, procurar o auxílio no local correto, usar preservativos, usar PrEP, tratar o HIV e se manter indetectável que vão fazer com que consigamos reduzir os números de novas infecções e mortes por HIV e outras IST. As festas e os fervos continuam e devem continuar, o prazer nas relações importa e muito, e aliando o conhecimento de técnicas de prevenção tudo fica ainda melhor para todos.

Um Estado quase Laico e a Pandemia

por Artemis Zamis

Desde que este governo foi instalado em 1º de janeiro de 2019, que o Brasil vem sendo varrido por uma ideologia ultra conservadora neopentecostal, que em certos momentos, administradas em doses homeopáticas, em outros em dosagens acima do limite, vem causando distúrbios, polarizações cada vez maiores e conflitos ideológicos no nosso tão sonhado estado laico. Os ditos neopentecostais acharam em Jair Bolsonaro a válvula que faltava para que seus interesses fossem atendidos e por isso lhes deram, e ainda dão, apoio incondicional, sem até mesmo se importarem com suas bandeiras nada democráticas, tais como a misoginia, o racismo, a homofobia, a violência, o espirito de matador, entre outras qualificações nada relacionadas com o verdadeiro espírito cristão. Mas, e quem está mesmo preocupado com o verdadeiro espírito cristão? Quem acompanha as declarações de pastores neopentecostais nas redes sociais e do presidente, vai entender que o que menos importa hoje é o cristianismo em si. Nada se fala da doutrina cristã e nada se fala da figura de Jesus que pregava a humildade e a ajuda aos mais necessitados. Vivemos um estado “burrocrático” no país. Quando o presidente vai as redes sociais e a TV e declara que o estado é laico mas ele é terrivelmente cristão, demonstra sua total ignorância do assunto e prega na verdade uma vontade de implantar no país uma utópica teocracia ultra conservadora que ele mesmo sabe que nunca irá acontecer, mas que o faz por ser um fanfarrão assumido.

O fato é que os neopentecostais não estão muito para a brincadeira. Ao contrário, estão levando muito a sério a posição que nunca alcançaram na história da república e não estão dispostos em hipótese alguma de abdicar ou até mesmo de sequer abandonarem por um instante as posições que assumiram no establishment. Sua bancada na câmara e no congresso é atuante e agressiva no que diz respeito a defender os seus interesses.

Em todo esse imbróglio governamental, a triste constatação é que eles não trouxeram nenhum programa de governo de qualquer espécie, para qualquer setor, a não ser os de interesse puramente corporativos como fim de impostos, ideologia de gênero, proibição ao aborto, entre outras questões morais. Mas seu protagonismo está patente e latente a cada dia que passa e por onde passam. Nos corredores sombrios do planalto, circulam em quantidade tamanha que ofuscam os que de fato praticam política. A história nos mostra que onde existiu, ou existe, o fundamentalismo religioso, sempre está junto dele o retrocesso, atrocidades e autoritarismo.

A constituição nos coloca como um estado laico e assim deve ser. Toda e qualquer religião deve ser respeitada independente de sua doutrina ou de seus dogmas, exceto os charlatões que precisam ser denunciados, processados e julgados na forma da lei. O que não se pode admitir é que usurpem o poder da república e de lá determinem o que nós o povo, que tem suas várias religiões e crenças ou até mesmo nenhuma, a aceitarem suas doutrinas e regras fundamentalistas.

A pandemia que o mundo enfrenta, nos afeta de forma severa e nem estamos ainda no seu pico total que deve acontecer neste mês de abril e maio. O governo alheio as recomendações da OMS e de autoridades de saúde do seu próprio governo, ignora as recomendações expressas de isolamento social e como temos visto em suas andanças, promove aglomerações e debocha da pandemia com mensagens de efeito. Como se não bastasse, declarou em uma entrevista ao apoiador Ratinho que as igrejas são serviços essenciais e que deveriam continuar com seus cultos sem restrições. Com isso ele atende as várias reclamações de lideres neopentecostais que denominam a pandemia como um vírus maligno. Como vemos, a religião já está na república, agora mais influente e mais atuante, inclusive pautando nossos costumes e nosso cotidiano.

Quando há a inconstitucional mistura entre igreja e estado laico, podem ocorrer espetáculos grotescos e constrangedores como o jejum nacional endossado pelo presidente nesta semana, que fracassou como já era esperado. Confunde-se o Brasil com o Israel bíblico. Não somos esse Israel bíblico, nem adeptos de um único pensamento teológico. Somos livres para pensar, agir e viver no regime democrático que elegemos.

Devemos exigir do governo um tratamento sério, técnico e responsável da maior pandemia deste século. Não é hora de conjecturas, ideologias, religiosidades, ofensas, picuinhas internas. Nosso inimigo agora é o vírus e é ele que devemos combater. Lideres religiosos tem toda liberdade de opinarem e professarem suas religiões, mas sem se apoderarem e se aboletarem no estado para pautar comportamentos e conceitos morais de quem quer que seja.

Nem nós, nem o mundo será o mesmo depois dessa pandemia.  

É prudente que pensemos desde já o que podemos querer do amanhã.