UM NOVO PAÍS AINDA É POSSIVEL

por Artemis Zamis

O ano de 2020 ficará marcado na história como o pior ano que nossa geração pode experimentar, desde que o S.S. Demerara chegara ao porto de Recife trazendo a pior e mais devastadora de todas as pandemias que foi a gripe espanhola. Mais de 100 milhões de pessoas sucumbiram por causa da peste em todo o mundo. Foi o ano em que nosso planeta foi atacado de novo e ainda continuamos a experimentar sem trégua, o gosto insípido da perda. Todos os dias perdemos um abraço, um beijo, um afago de alguém que amávamos.

Temos novos comportamentos, novas maneiras de nos relacionarmos e um novo modo de vida. 2020 foi o ano ruim em todos os sentidos. Afinal, uma pandemia não pode trazer outra coisa a não ser a derrota e muita desgraça. O Brasil não ficou de fora desse flagelo humano, e como se não bastasse, o potencializou pelo descaso e pela incompetência das autoridades. Já mencionei isso em outros textos e posso estar sendo repetitivo, mas entendo que são coisas que precisam ser ditas sempre, até que mudem, até que se mude.

O Brasil, em meio ao medo e a expectativa da vacina, assiste ansioso os mais de 40 países vacinarem em massa seus compatriotas. Governos aguerridos em busca da vacina obtiveram sucesso em adquiri-las e promovem o alívio do medo, optando por dar a todos a esperança da vida.

2021 será o ano da esperança.

É o ano em que cedo ou tarde a vacina virá. E é apenas ela que pode nos assegurar a vida e a força para lutar e acreditar que podemos sim, fazer um pais melhor, um novo país.

Um novo país ainda é possível.

É possível porque nosso povo ainda tem maioria que é solidaria, afeita a bons gestos de humanidade e propagador de esperança. Nossa esperança deverá ser pautada em uma união forte, coesa, onde as diferenças sejam deixadas um pouco de lado e nossa luta seja pela reconstrução. Uma reconstrução da economia, do trabalho, da educação, da saúde, mas principalmente a reconstrução de nossa sobriedade perdida. Reconstruir em nome dos que perdemos, um novo caminho, novos pensamentos e nova forma de país. O mundo mudará e com ele obrigatoriamente também mudaremos. Ainda é desconhecido o que nos aguarda no futuro. Tudo ainda é obscuro e temeroso, não temos a absoluta certeza do que será o pós pandemia, porém há de se lutar e acreditar que o melhor e mais promissor terá que acontecer.

Lutaremos por nossos filhos, nossos netos, toda nossa família. Nossas estruturas familiares são sempre nossos pilares e são por eles que acordamos e voltamos pra casa todos os dias.

Um novo país é possível, acredite nisso.

FELIZ 2021!!!

BRASIL DE AMOR ETERNO, SEJA SIMBOLO DE NOVO

por Artemis Zamis

“A pandemia realmente tá chegando ao fim. Os números tem mostrado isso daí”

“Tem uma pequena ascensão agora, o que chama de pequeno repique”

“A pressa da vacina não se justifica porque você mexe com a vida das pessoas”

Estas frases, que embora pareçam ter sido ditas por um interno de algum manicómio, na verdade foram ditas por uma “pessoa” que ocupa neste momento o maior cargo executivo do país que é o de presidente da república.

Disse, com a frieza dos genocidas e com o desequilíbrio aparente dos sociopatas. Disse, em uma semana em que o Brasil atingiu a triste marca de 333 mil novos casos de Covid-19, o maior desde o início da pandemia. Disse, quando o mundo atinge quase 2 milhões de mortos, e quando, só no Brasil, já quase atingimos 200 mil mortes pela pandemia. Disse, porque lhe é prazeroso promover o caos e a desordem. Disse, porque a mentira é o seu maior dom e a sua melhor plataforma de governar, ou desgovernar. Disse, porque é o monstro da vez, em um mundo onde os monstros já foram quase todos extintos. Só ele persiste.

Nós, brasileiros lúcidos, infelizmente fomos os sorteados por alguma força desconhecida para ficar sob o julgo de um ser tão pusilânime e funesto. Acometidos por uma das mais devastadoras pandemias já vistas no mundo, nos coube o comando da incompetência, da insensatez e da desinformação. Vimos ser nomeado para presidir a pasta da saúde, órgão que por sua atribuição seria o condutor e controlador da pandemia, um general especialista em logística militar. Um ministro que, dentre as tantas declarações sem sentido, nos brindou com a pérola da semana:

“Pra que essa ansiedade, essa angústia?”

Disse ao se referir sobre a expectativa da população quanto a chegada da vacina. É notório que o obediente e submisso ministro não tem preparo algum para o cargo, e foi colocado lá por isso mesmo. Aqui é regra que a incompetência seja requisito básico para importantes cargos, desde o mais alto escalão até o baixo clero. O do presidente é o mais evidente.

No mundo, todo o esforço de todos tem sido para debelar a pandemia. Órgãos de saúde fizeram um esforço, nunca visto antes, para criarem uma vacina em tempo recorde, que fosse eficaz e confiável. E chegou. Em vários países já começaram a aplicação da vacina, porque foram competentes e eficientes quanto a concentração exclusiva de preservarem a vida das pessoas. Nosso presidente preferiu fazer politica e mentir, espalhando que a cloroquina, um remédio comprovadamente ineficaz para o tratamento da covid-19, é que salva.

Não temos um governo, temos sim um presidente que, ao fazer todo essa baderna ideológica, tem só o sentido de tirar o foco dos escândalos que envolvem sua família, e principalmente, Flavio Bolsonaro que recentemente foi revelado pela imprensa que a Abin lhe forneceu relatórios privilegiados para sua defesa no caso das rachadinhas da Alerj.

Desde 2018 o Brasil não tem um presidente que se preocupa com planos para a economia, saúde, educação, trabalho, infraestrutura e planos sociais. Sua preocupação exclusiva é promover absurdos para tirar o foco de supostos crimes que envolvem os seus zeros.

Até quando seremos escravos dessa desordem?

Não podemos aceitar a normalização do absurdo que se desenha no Brasil. Parte da imprensa que antes ajudou a criar o monstro, e hoje não sabe o que fazer com a criatura, se omite e lança a população à fome e a miséria.

Assistimos passivos retirarem nossos direitos trabalhistas, nossos empregos e nossa saúde. Assistimos acuados o desmonte do país. Nos jogam na lama da vergonha e nos amordaçam sem que sintamos a opressão.

A mentira, o gabinete do ódio, os soldados das fake news mudaram a cara do país com o novo governo. Transformaram mentes e nos impuseram a desinformação como mote principal para a sustentação da Et caterva. Souberam descobrir com maestria que um povo pode ser manipulado facilmente quando uma mentira lhes é empurrada nas vísceras. Hitler, Mussolini foram os grandes mestres que até hoje despertam paixões. Parece surreal, mas é fato.

De qualquer forma, a pandemia vai passar. Pra nós, mais tardiamente, mas vai passar. Infelizmente com mais vidas perdidas por incompetência das autoridades, mas vai passar. E quando passar, que possamos estar apostos para nos mover ainda que despedaçados, na maior união democrática já vista, para o resgate da normalidade democrática e de nossas vidas.

Eu aposto nisso.

FELIZ NATAL

por Artemis Zamis

Estamos nos aproximando do Natal, a data em que o cristianismo comemora o aniversário de Jesus. Nosso natal será em um mundo totalmente diferente daquele que estávamos acostumados a passar, por conta da pandemia da covid-19 que ainda perdura e se espalha por todo o planeta dizimando milhares de pessoas e contaminando outras tantas. Ainda teremos um Natal sem a tão aguardada vacina, mas que com certeza será um Natal de esperança que ela logo chegue e traga de volta um pouco de nossa vida normal ou quase normal.

 As comemorações desse Natal em muitos lares, terão cadeiras vazias na mesa da ceia, uma, duas ou mais. Em algum lugar, alguém deixará de abraçar um parente ou um amigo que lhes foi tirado repentinamente pela pandemia. Em algum momento o sorriso, tradicional dessa data, poderá dar lugar a um choro contido e saudoso. Nossa Geração nunca havia passado por algo tão inesperado e devastador. O Brasil foi um dos países mais afetados e menos assistido pelas autoridades competentes. Desprezaram e subestimaram o vírus, trataram-no atabalhoadamente e por vezes com deboche e ironias descabidas. Dificultaram estudos e protocolos de tratamento. Foi um começo triste e desesperador para a classe médica que por desconhecer quase tudo da doença e tendo que lidar com os embaraços das autoridades de saúde, nos trouxe um dos piores resultados de contaminação e óbitos do mundo. Hoje, estamos no limiar de uma segunda onda e não temos nenhuma medida de contenção séria e efetiva. As aglomerações continuam indiscriminadamente em bares, baladas, praias, estradas, como se a pandemia já tivesse terminado. Máscaras são desprezadas, protocolos de distanciamento são desrespeitados e pessoas estão surtando com atitudes violentas, como no caso de um cidadão que agrediu um outro em um restaurante, simplesmente por ter tossido à mesa em que se preparava para fazer uma refeição.

 Mas é Natal. Será sim diferente de todos, mesmo para os que não perderam algum ente querido. Será diferente por termos tido um ano sem empregos, sem saúde, sem perspectivas econômicas, sem um plano econômico consistentes que vislumbre um horizonte promissor para todos, aumentos astronômicos de produtos básicos como o gás de cozinha, e da cesta básica, supressão do auxilio emergencial, que embora pequeno, ajudava milhares de pessoas a proverem um sustento mínimo que fosse.

 Mas é Natal. Se não pudermos ter a alegria de sempre, que tenhamos a coragem de prosseguir na luta por um mundo melhor, coragem de lutar por nosso país e por nossos irmãos que sofrem em algum lugar desse imenso território. Que possamos ter união e força para promovermos um recomeço, onde todos possam ter os seus sonhos de volta e a liberdade de alçar novos voos em busca de uma vida melhor pra si e para os seus. Que a palavra amizade deixe de ser apenas um substantivo e seja calor, afago, consideração, amor e sinceridade.

 O mundo vai precisar que todos os dias sejam sempre de um Feliz Natal.

Sex Education

por Larissa Nogueira

E hoje vamos falar de uma série que eu evitei muito, porque eu fujo de séries tens, e que bobagem que eu fiz! Bobagem corrigida e que merece está aqui hoje no Na Tela com a Lari, vamos então falar de S-E-X-O?! SEXO?! Sim, vamos de Sex Education.

Maeve, Otis e Eric – Sex Education (NETFLIX)

Sex Education é uma série de comédia/drama britânica, vocês estão ligados que eu sou fissurada em séries britânicas né?! Que está no catálogo da Netflix, foi criada por Laurie Nunn. Nessa série, vamos acompanhar a história de Otis (Asa Butterfield), um adolescente de 16 anos, que começa a sentir a sua sexualidade aflorando. Sua mãe, vivida pela excelente Gillian Anderson, que faz o papel da insuportável da Margaret Thatcher em The Crown, está maravilhosa aqui também e vem dar aquele toque especial, porque  ela é uma terapeuta sexual, logo, Otis já escutou muita coisa sobre sexo dentro de sua casa, inclusive tropeça com os namorados da mãe que vão e vem, e frequentemente entram em seu quarto achando que é o banheiro da casa. Só que mesmo tendo vivido em um lar liberal e sacar até bem sobre sexualidade, ele ainda se sente constrangido quanto o assunto é a sua sexualidade. Quem nunca né gente?! Isso toma maiores proporções porque todos os alunos da sua escola, também estão se descobrindo sexualmente. E vendo seus colegas se debatendo com questões sexuais, ele percebe que conhece o assunto e começa a dar conselhos para eles e cria um tipo de clínica, terapia breve, onde ele escuta e dá conselhos e faz isso com a amiga Maeve (Emma Mackey). E mesmo assim, a trama não nos deixa esquecer de que ele também é adolescente e que também está cheio de inseguranças quanto ao fato de ser virgem e não conseguir se masturbar.

Larissa, essa série não é um besteirol de adolescentes?!!! NÃO! Não é! Com o passar dos episódios, a série vai se aprofundando em diversos temas da sexualidade e da afetividade humana de uma forma super responsável e às vezes, por que não, até didática. Vamos dar uma olhada no melhor amigo de Otis, Eric (Ncuti Gatwa): de cara parece o clássico gay afeminado e divertido, só que seu personagem vai se aprofundando e, ele tem cenas lindas com seu pai, que assim, passa a aceitar melhor a si mesmo, suas origens e seus desejos. Esses papos que o Eric leva com o pai dele na série me lembrou muito aquele diálogo final de Call Me by Your Name, que me fez chorar no cinema, já assistiu? Se não assistiu, assista!

Filme; Call me by Your name (2017)

Assistindo a série, nós vamos entendendo que as dificuldades de Otis, são um reflexo de vivências traumáticas da sua infância no ambiente familiar, que tem tudo a ver com o modo como seus pais lidam com o sexo e então dessa forma, nós temos  também a oportunidade de acompanhar a transformação que ocorre na relação de Otis com seus pais, assim como, de outros personagens e vamos entendendo como o ambiente familiar pode ser um facilitador ou dificultador para a criação da identidade desses adolescentes.

Durante nossa vida, vamos fazendo constantes descobertas sobre nossa identidade, nossos desejos e esses questionamentos são levantados a respeito de quem somos e de quem queremos ser. Esse processo é sempre envolto em angústias a respeito de situações vivenciadas, dentre elas a sexualidade que ganha muita importância principalmente na adolescência. E quando falamos de sexualidade estamos nos referindo a um conceito estudado em Psicanálise que diz respeito à forma como o sujeito se relaciona com ele mesmo, com o ambiente e com as pessoas ao seu redor, tanto no campo afetivo como no campo sexual.

Otis e sua Mãe, Jean Milburn, que é terapeuta sexual.

Sex Education deixa claro que a chave para quebrar tabus é a comunicação e a compreensão. Fora que é uma série muito divertida, eu dei altas gargalhadas e me lembrei de muito de quando eu fui adolescente. O melhor, é que trata com grande responsabilidade, honestidade e delicadeza, assuntos que vão desde aborto até a aceitação própria, passando por masturbação e relacionamentos familiares ou entre amigos. A série como disse, foi criada por uma mulher e os roteiros são assinados por mulheres também, e penso que é por isso que tudo reflete de maneira muito positiva na narrativa, sabe por quê? Vamos lá, as personagens femininas são muito bem desenvolvidas e empoderadas, elas discutem sobre saúde feminina e sororidade, eu achei esses momentos maravilhosos! E a série também aborda a masculinidade sem que seus personagens masculinos sejam tóxicos, a gente só tira dessa o diretor da escola, ele é bem podre! E é muito sensacional de ver como ela retrata com naturalidade pessoas da comunidade LGBTI+ e seus relacionamentos.

Eu resisti muito a Sex Education, como já disse, e me rendi! Quero dar um destaque para o elenco, a maioria principiante, diverso e talentoso. Enfim, uma série primorosa que, com muito bom humor, falando sobre assuntos tão fundamentais a formação de um ser humano.

Eric (Ncuti Gatwa) e Adam Groff (Connor Swindells).

Recomendo Sex Education para todas as pessoas que se interessam pela temática do sexo e puberdade e digo mais, assista e recomende essa série para aquelas pessoas retrógadas e que são contra a educação sexual nas escolas, talvez ajude né?! Precisamos tentar! Um aviso importante, talvez você também precise se despir, ficar nu, abandonar suas crenças e olhar os personagens com sensibilidade, para conseguir assim captar as nuances das suas relações.

Fleabag

por Larissa Nogueira

Vem comigo e vamos descobrir juntos quem é Fleabag! É uma comédia britânica, uma série de somente duas temporadas com seis episódios curtos em cada, acho que no máximo 25 minutos cada um. É de 2016 e te garanto que vale super a pena assistir, vem mulherada!

FLEABAG, disponível na amazon Prime Video

Foi escrita, produzida e dirigida por Phoebe Waller-Bridge, e é uma das coisas mais impressionantes em termos narrativos já vistos nos últimos anos na televisão. Não é para menos que o nome da roteirista e atriz está crescendo cada vez mais no meio cultural. Além de Fleabag, a inglesa de 33 anos é a criadora da ótima Killing Eve, e está escrevendo o próximo 007 (a pedido de Daniel Craig), também podemos vê-la na Netflix na série Crashing, também de sua criação.

Eu descobri que Fleabag, foi criada a partir de um monólogo feito para o teatro, e quando descobri isso, vi que tinha tudo a ver, pois,  a série conta a história de uma mulher (Phoebe Waller-Bridge), adulta lidando com problemas que todas nós mulheres de alguma forma já lidamos um dia, ou lidamos ainda, que são: problemas de relacionamento, frustração profissional e sexual, dramas e conflitos familiares.

Fleabag, mora em Londres, e é dona de um café que está praticamente falido, e que sozinha tenta atravessar o luto depois da morte de sua melhor amiga e sócia no café. Enquanto isso, vemos Fleabag, tentar se relacionar com sua complicada irmã Claire (Sian Clifford), que é uma executiva de sucesso, seu cunhado podre, Martin (Brett Gelman), seu pai, interpretado aqui por Bill Paterson, e sua madrasta pra lá de megera, papel da sempre maravilhosa Olivia Colman, ganhadora do Oscar de melhor atriz em 2019 pelo filme A Favorita e que faz a Rainha Elizabeth em The Crown.

Um dos motivos que eu amo essa série é a maneira com que ela falou comigo. Sim, a atriz está o tempo todo conversando com quem está assistindo, e eu acho isso brilhante e até me peguei algumas vezes respondendo a algumas perguntas ou brincadeiras que ela faz. E de uma forma sensacional, Fleabag consegue se fazer tão presente e assim, se comunica conosco de uma forma tão intima. Sempre que penso nisso me lembro do filme HER com o Joaquin Phoenix e com a Scarlett Johansson, onde eu consegui sentir a presença dela o tempo todo, mesmo ela não aparecendo uma única vez, adoro esse filme e recomendo demais! Tá, ta bom, eu sei que esse recurso, não é nenhuma novidade em filmes e séries, mas a forma como acontece em Fleabag, me dá a sensação de que é diferente de tudo que já vimos na TV.

FLEABAG, batendo aquele papo com a gente.

Sozinha, super deprimida e usando e abusando do sexo para não pensar nas questões e traumas de sua vida, vemos que Fleabag não tem amigos, ela conta conosco, o público. E como disse acima, nós, quando vemos, estamos conversando com ela em quase todos os momentos, sempre de forma muito espontânea. Ela flerta o tempo todo com a câmera que parece saber o que estamos pensando e assim, olhando para nós, faz com que olhemos ainda mais para ela e vivemos com Fleabag suas agonias, seus segredos e por isso, nós gargalhamos, nos preocupamos e choramos com suas escolhas.

Acho valido ressaltar que não há um tom moralista que demonize a transa casual, ou que diga que o entusiasmo feminino pelo sexo é necessariamente uma expressão de angústia. Também não acho que Fleabag idealiza o sexo sob a aura dourada do empoderamento e do sagrado feminino. Acho que a série acerta e muito quando justamente evita o tom normativo que muitas vezes quer dizer o que o sexo deve ser e o que não deve ser. Vamos pensar nisso? Vocês não tem a sensação também que ás vezes o sexo é, a coisa menos intima que pode rolar? Sexo pode entrar como paliativo para tantas coisas, nos distraindo de nossos demônios, de nossos medos, de culpas, responsabilidades. E essa série não trata da sexualidade feminina de uma forma superficial, não, não! Ela vai fundo e aí a autora se arrisca a nos dizer muitas verdades. E é por isso, acho eu, que tem gente que não curte Fleabag, porque não rola uma resolução cômica, clichês de superação, ao contrário, o que rola na tela, fica mesmo em quem não tem coragem de reconhecer ou de admitir pra si mesmo o que acontece dentro de si.

Phoebe Waller-Bridge, atriz, produtora e diretora da série
Phoebe Waller-Bridge, protagonista, diretora e produtora da série

Eu, acho nossa protagonista uma mulher encantadora e engraçada, que por onde passa ilumina tudo e faz todo mundo rir, mas no decorrer dos episódios vemos que, no fundo, ela carrega segredos, angustias, medos que a fazem repetir comportamentos destrutivos, e o quanto isso vai afastando todo mundo que tenha a mínima intenção de ajudá-la.

Phoebe Waller-Bridge, captura momentos do nosso dia a dia que só nos damos conta quando vemos ali na tela. E é por isso, que as expressões faciais, modos de falar e constrangimentos, são colocados na tela como se fosse um espelho para o público. É tudo tão rápido, como pede o humor britânico, que as vezes fica difícil acompanhar cada detalhe da cena, mas tudo ali é pensado, orquestrado e funcional.

Me perguntaram uma vez: mas essa série só fala de sexo? Se liga, Fleabag fala sobre sexo, sim, mas também sobre franqueza e humor, e também sobre como tudo isso pode ser usado para evitar o incômodo de uma intimidade; ou quem sabe até alcançá-la, quando a intimidade se torna irresistível. Pra mim, é uma história de amor e a mensagem da série é clara ao dizer que estamos diante de uma mulher que diz o que todas pensamos e não temos coragem de dizer. Se o humor de Fleabag alivia um pouco a tensão que sua personagem carrega, ele joga para nós um incômodo, pois quanto mais eu gargalhava em uma cena, mais ela me deixou vulnerável depois, cada piada é imediatamente seguida de um soco no estômago.

Phoebe Waller-Bridge e Andrew Scott, o padre gato!

Pra mim, Fleabag já seria uma obra-prima, só pelo final da primeira temporada, que é quando vemos a nossa protagonista sofrendo uma rejeição absurda, e assistir isso me deu uma experiencia muito mais intima do que qualquer piada com vibradores.  Só que essa é apenas a metade da história. A série retorna, em sua segunda e última temporada, disposta a mostrar que o mesmo jogo de sedução que serve como dispositivo de distanciamento serve, também, para nos aproximar do outro. Chega abordando o amor, e o quanto é aterrorizante amar, principalmente para alguém que se odeia e que sempre se sentiu ameaçada pelo amor. E aí entra o Padre, apelidado pelos fãs da série, inclusive eu, de “o Padre gato” (só vou dar esse spoiler) e ele reconhece que não é fácil pensar em algo original a se dizer sobre o amor, parece até ironia né gente, porque Fleabag, é vista como a série mais original de 2019, só que eu penso que o amor segue sendo um assunto que não se esgota, porque existem muitas coisas a serem ditas sobre, desde que se tenha coragem.

Years and Years

por Larissa Nogueira

Nós que acompanhamos o mundo das séries de TV, eu mesmo sendo rata de série, acho impossível ficar totalmente atualizada. São tantas estreias e retornos a cada mês, fora as séries antigas que descobrimos e que queremos assistir, e ficar em dia com tudo isso é pra mim, inalcançável. E com o tempo, assistindo a tantas produções diferentes, poucas coisas realmente conseguem me surpreender. Years and Years é uma delas! Foi criada por Russell T. Davies (A Very English Scandal, Doctor Who) é uma produção da BBC One, exibida no Brasil pela HBO e se destaca no vasto e concorrido universo televisivo justamente por ser algo totalmente novo e imprevisível.

 Na trama aparentemente simples, acompanhamos uma família durante vários anos, e vemos as relações entre casais, pais e filhos e o conflito de gerações. O ponto alto, aqui, é o contexto! Years and Years pega pesado nos comentários sociais e políticos e isso faz com que o contexto familiar se afaste dos clichês e convencionalidades do gênero. Ao passo que a família segue seu curso, suas vidas são alteradas por fatores externos e muito maiores, porque são acontecimentos que ultrapassam o núcleo familiar.

Família Lyons

Enquanto o Reino Unido é tomado com instáveis avanços políticos, econômicos e tecnológicos, nós vamos acompanhamos a família Lyons e como as suas vidas convergem para a crucial noite em 2019, que muda a vida não só deles, mas do mundo todo. E pelos próximos 15 anos, as reviravoltas do cenário mundial vão influenciar o cotidiano dessa família. E aí surge Emma Thompson, na pele de uma política de extrema direita e bota extrema nisso!  E ela rouba a cena e personifica todos Bolsonaros e Trumps do mundo, Rooky (sua personagem) nos mostra de forma bem construída ao mostrar como um autoritário consegue chegar ao poder sendo popular e falsamente democrático. Sacou?!!!!

Emma Thompson, na pele da política de extrema direita Roock

Já enfrentamos hoje problemas como o desemprego, fome, grandes rotas de imigração e os impactos da tecnologia no dia a dia e na política. A União Europeia, por exemplo, recebeu o maior fluxo migratório de sua história nesta década, um número bem maior do que o dos períodos das duas Grandes Guerras Mundiais. No Brasil, o desemprego está na casa dos 14,4% e não apresenta sinais de melhora há pelo menos 5 anos. Diante desse cenário, quais são nossas perspectivas de futuro?

Por isso, essa semana, quando estamos próximos do segundo turno para prefeitxs na maioria das capitais brasileiras, eu quis falar dessa série. Nosso voto é importante e não podemos eleger candidatos aliados a extrema direita e nem nos isentar e votar nulo.

A série aumenta a realidade de agora tendo como ponto de vista um futuro pessimista e possível. Logo vem à tona o quanto é nocivo um governo que chega ao poder, com seu populismo barato, ignorando as questão das mudanças climáticas — na série vemos meses de chuvas ininterruptas —, o avanço da tecnologia, que muito diferentemente da visão de Black Mirror, nos mostra um futuro mais brando e nada futurístico, mas não menos perturbador. A série teoriza até que, no futuro, teremos apagões e quedas de energia e isso fará a popularidade do papel aumentar, obrigando que gente voltar a ler jornais impressos ou livros, pois são menos suscetíveis a panes tecnológicas. Por que será que me lembrei do que está se passando no Amapá?!

Bom, voltando para Years and Years, onde nesse cenário, Trump não apenas é reeleito em 2020, como lança um míssil nuclear em uma ilha fictícia da China, montando operações militares na base ocupada, pelo menos disso nos livramos né?! Enquanto isso a Rússia assume a Ucrânia à força e há um colapso nos bancos e no mercado de ações, o que faz todo mundo perder o dinheiro que tinha guardado. A tecnologia agora permite que humanos se tornem “trans-humanos”, e assim viver digitalmente e para sempre. As florestas tropicais não existem mais, o Pólo Norte derreteu e, como nos dias de hoje, a maioria não dá a mínima para nada isso.

Campos de concentração de imigrantes na Inglaterra

O que eu adoro na série é que ela desenvolve suas histórias de forma bem imprevisível. O primeiro episódio, por exemplo, começa de forma descompromissada e transita entre o drama familiar e a comédia. Com o tempo, começam a aparecer as ideias fortes acerca da política, sociedade e tecnologia. Calma ai genty! Years and Years não é uma série totalmente política. Apesar dos discursos poderosos, a série não é House of Cardsnem panfletária. Eu ainda vejo a série como um drama familiar com grandes doses de humor, humor britânico, que eu adoro! Arrisco dizer que Years and Years é um espelho das nossas vidas em família, porque seguimos tendo a nossa vida e momentos próprios e pessoais, mas o contexto social, político e econômico ainda nos impacta em maior ou menor grau. A série tenta colocar uma lupa nos absurdos que vemos hoje, aumentá-los e mostrar o que poderá ser daqui para frente se nós não acordarmos. Aliás, ninguém acorda.

Years and Yearsportanto, é uma distopia dos dias atuais. Além disso, quando explora a passagem do tempo, a série brinca com falsas mudanças onde apesar da troca de presidentes e da morte da rainha, nada muda de verdade. O surgimento de Rook, a política fora dos padrões, reflete o surgimento de diversos outros falsos salvadores ao redor do mundo. Com isso, vemos que o discurso engraçado e populista dos políticos não representa uma mudança ou sequer a presença de ideais e planos.

Uma pausa aqui para falar da avó da família, que pra mim, é protagonista de uma das melhores cenas da série, quando ela faz um discurso dizendo que todos ali são culpados e responsáveis pelo mundo estar daquele jeito. Eu revi essa cena várias vezes, várias e me arrepiei em todas as vezes.

CRÍTICA – Years and Years – Papo Furado Podcast
Momento marcante do discurso da Avó da família Lyons

Um adendo: a série erra em alguns momentos quando por exemplo, compara um governo de extrema esquerda com um de extrema direita, como se todos fossem farinha do mesmo saco, e não é né mores?! Até porque dá a entender que a racionalidade está reservada ao centro e ao liberalismo econômico. Morry mil vezes.

Muitas pessoas não conseguiram assistir toda a série, muitas acharam que o soco no estômago é forte demais. Eu assisti duas vezes e penso que é um chamado para agirmos, pois lembrando o discurso da avó, se hoje temos tantos problemas assim, a culpa é nossa. Talvez, tudo pudesse ser evitado se nós agíssemos e fizéssemos a nossa parte.

Por esse motivo quis trazer Years and Years, porque as eleições para prefeito estão para serem decididas em várias cidades e sim, temos a chance de mudar o curso da nossa história e se não fizermos seremos culpados. Assim como na série não é momento de ficar sentado na frente da TV rindo de candidatos que nos parecem absurdos, mas que encontram a sua plateia. Assim como a vida, Years and Years é uma minissérie perturbadora e sensacional, e não é pros fracos do coração.

Inacreditável

por Larissa Nogueira

Eu adoro séries feministas! É tão bom para pensar sobre o papel da mulher no mundo. Quando a gente explora o catálogo da Netflix, encontramos várias produções com personagens feministas maravilhosas e que nos inspiram com suas histórias que buscam igualdade, respeito e liberdade, através de suas vivências e lutas. Assim, mergulhamos na liberdade sexual feminina, na desconstrução de condutas machistas, na independência financeira e emocional das mulheres e na sororidade. Adoro essa palavra! E também, tratam da não exploração e objetificação do corpo feminino, na emancipação e põem em cheque o sistema patriarcal. Né isso mulherada?!

Então vamos mergulhar de cabeça em Inacreditável! Inacreditável é uma minissérie de investigação criminal, baseada no livro Falsa Acusação: Uma história verdadeira. A saber, conta a história real da jovem Marie Adler (Kaitlyn Denver), que foi acusada de falsa denúncia de estupro.

725Kaitlyn Denver como Marie Adler

A série aborda o tema do estupro, da violência e do machismo de forma tão realista que eu fiquei com um nó no estômago, e isso incomodou muita gente, pelo menos as pessoas com quem eu troquei figurinhas sobre a série. E é uma história contada em duas linhas do tempo, com cidades e anos diferentes, mas ainda assim, interligados. Uma delas se passa em Washington no ano de 2008 e nos traz a dramática história de Marie Adler a outra se passa no Colorado, em 2011, que retrata o sério e árduo trabalho de duas investigadoras, Karen Duvall (Merrit Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette).

Merrit Wever como Karen Duvall e Toni Collette como Grace Rasmussen

Marie desde criança leva uma vida extremamente difícil, sempre em lares adotivos desde os três anos de idade, sofreu várias agressões psicológicas e físicas, vemos uma cena em que ela é alimentada com comida para cães, e no ano de 2008 Marie é estuprada e acaba retirando a queixa e alega falsa acusação, após ser pressionada pela polícia, pois segundo os dois policiais homens que cuidam do seu caso “não havia provas que comprovassem o crime” e por Marie ser “uma moça complicada que viveu muitos traumas” poderia ter “inventado” o estupro.

Uma pausa aqui, porque acabamos de ver algo semelhante acontecer no Brasil com o caso da Mariana Ferrer e foi por isso que eu fiz questão de trazer essa série que não é super nova no catálogo da Netflix, porém super atual.

Em 2011 um caso semelhante de estupro acontece e a investigadora Karen Duvall assume o caso. Semelhante porque como o caso de Marie, o local e a vítima não tinham nenhuma prova do estupro. E Duvall encontra muitas semelhanças entre o seu caso e o da investigadora que é super reconhecida e admirada Grace Rasmussen (Colletti). Elas se juntam nessa jornada em busca de um possível estuprador em série e nessa hora eu dei pulos no sofá, porque pense em duas atrizes que eu amo de paixão! Toni Colletti desde que fez o Casamento de Muriel em 1994 e Merrit Wever por sua saudosa atuação em The Walking Dead.

Fiquei de cara já chocada com a forma que Marie, a vítima, é tratada pelos policiais, que são todos homens diga-se de passagem e sem nenhum conhecimento, treinamento ou mesmo empatia e logo vemos como uma vítima de estupro recebe um tratamento distante e cruel do Estado. Assistimos a momentos absurdos, que vão desde a vítima ser interrogada várias, eu disse várias, várias vezes por pessoas diferentes, o exame de corpo de delito, o registro na delegacia e tudo isso acompanhado do total descaso dos policiais e a falta de preparo e tato para lidarem com um caso tão delicado e que pode realmente acabar com a vida de uma mulher. E é por isso que Marie, você já devia estar se perguntando, retira sua denúncia. Vale lembrar que Marie está sempre sozinha, sem nenhum apoio ou afeto.

Só quem nem tudo está perdido, pois com a chegada das investigadoras, nós sentimos um alívio enorme e já percebemos o abismo entre o tratamento dado às vítimas com polícias homens e mulheres. Karen e Grace se preocupam com o estado psicológico da vítima e dão suporte emocional a elas. A sororidade entre mulheres é, no mínimo, acalentadora.

Vemos então, o quanto é importante ter policiais mulheres á frente de uma investigação sobre casos de estupro e violência doméstica e esse é um ponto forte da série que faz também uma denúncia da falta de segurança pública, denuncia o protecionismo do Estado quanto aos policiais homens, e denuncia também o despreparo de policiais e o não acolhimento do Estado com vítimas de abusos sexuais. Só para registrar, a trilha sonora é boa e tem uma cena em que a detetive Karen está dentro do carro buscando por pistas de forma exaustiva, e tem um breve minuto de descontração quando começa a tocar no rádio a música “All Around The Kitchen”, do Pete Seeger, canção da década de 1950 que aparece no quinto episódio da série.

The Morning Show

por Larissa Nogueira

Em busca de sua fatia de mercado na batalha do streaming, a Apple entra na disputa com o Apple TV+. Em um mercado já dominado pela Netflix e no qual cada vez mais serviços disputam espaço, o novo serviço chega com o drama “The Morning Show”, estrelado por, Steve Carell, Jennifer Aniston e Resse Withersponn sendo que as duas são produtoras executivas da série também.

Depois de 15 anos de espera, após o término da inesquecível série Friends, Jennifer Aniston, sim ela mesma! está de volta a TV com a série The Morning Show. E Aniston volta dando um show e faz uma bela escolha, pois, ela vai desafiar um mundo dominado por homens e nos mostra que nós mulheres precisamos lutar muito ainda para ter respeito e autonomia.

The Morning Show nos conta a história de Alex Levy (J. Aniston), uma ambiciosa apresentadora de TV, que confronta o sexismo e a diferença de idade no seu trabalho. Alex é uma das ancoras de um programa matinal de maior prestígio nos EUA, que se chama – Morning Show. Logo de cara já ficamos sabendo de um escândalo, que envolve o âncora do programa, sobre abusos sexuais com colegas de trabalho. E vemos que Levy é pega de surpresa quando seu colega de trabalho e amigo, há 15 anos juntos na bancada do programa, Mitch Kessler (Steve Carell), que está sensacional nesse papel, é demitido após vir à tona alegações de assédio sexual. Assim, de uma forma muito sutil, as camadas que englobam a cultura do silêncio vão aparecendo.

Alex Levy (Jennifer Aniston) e Mitch Kessler (Steve Carell)

Levy (J. Aniston), se vê em uma situação muito complicada, porque ela terá que se posicionar e noticiar o fato para o mundo. Nesse meio tempo, ela descobre que ela estava prestes a ser demitida, por estar sendo considerada velha demais pelos executivos da empresa, e então, ela se aproveita do caos que reina para renovar seu contrato.  Nesse cenário confuso, surge a jovem Bradley Jackson, interpretada pela maravilhosa Reese Witherspoon, que trabalhava numa emissora do interior e que de repente, após uma discussão durante um protesto, fica conhecida nacionalmente, pois o vídeo da discussão viraliza no YouTube. Depois disso os chefões do jornalismo da emissora de Levy, querem que Levy e Bradley, estejam lado a lado durante as manhãs apresentando o programa.

Alex Levy (Jennifer Aniston) e Bradley Jackson (Reese Witherspoon)

Levy, inconformada e seguindo seu instinto de jornalista investigativa, decide ir mais a fundo no caso de assédio sexual envolvendo Kessler dentro da emissora. E começa a se perguntar, afinal, todos os relatos que ela já tinha escutado eram verdadeiros? Seus colegas sabiam de tudo e nada fizeram para evitar? Uma pausa aqui para exaltar um filme maravilhoso, e que eu indico muito, que se chama “ O Escândalo” com as deusas Nicole Kidman, Charlize Theron e Margot Robbie, baseado em fatos reais, nos mostra que a emissora de TV – FOX NEWS – esteve envolvida num escândalo de abuso e assedio sexual, e o quanto as pessoas que estavam lá dentro trabalhando sabiam e nada faziam para que isso tivesse fim,  e isso tem nome; chama-se a CULTURA DO SILÊNCIO E CULTURA DO ABUSO, essa na maior parte das vezes, é feita por homens poderosos que usam do seu cargo para forçar práticas sexuais com mulheres em posições inferiores, dentro da hierarquia da instituição.

Kessler não é o único vilão da trama, tem, inclusive, uma cena muito boa em que ele conversa com um amigo que é diretor de cinema e que também é acusado de abuso sexual. Durante essa conversa, ele percebe que não quer estar no mesmo lado daquele homem e diz: “Somos diferentes, você é realmente um predador sexual”. Os   executivos da emissora que tentaram abafar o caso o máximo possível, também se colocam numa posição de oponentes, e é nesse momento que a trama faz de Jennifer Aniston a verdadeira protagonista. Uma protagonista, que é zero boazinha diga-se de passagem! E é isso que torna a trama interessante, uma vez que você passa a torcer por Levy, mesmo sabendo que ela não é uma pessoa muito correta, né?

Eu acho que a série acerta também em escancarar a ação de Mitch e de mostrar como ele não enxerga (ou prefere não enxergar), a gravidade de seus atos. Na relação dele como Hannah (Gugu Mbatha-Raw), vemos como as cicatrizes perduram e causam danos permanentes. Vemos então aí um dos grandes problemas estruturais de emissoras de televisão que criam ambientes e uma cultura de proteção às suas estrelas e, assim, viram as costas para os casos de abuso.

E o que dizer de Resse Whiterspoon?! Sua personagem começa um pouco tímida na série, mas logo cresce, e sim, como sempre ela vem abalando todas as nossas estruturas. Sua personagem é determinada e preza pela ética. Mas Bradley Jackson (Resse) não é boba e, ao longo dos episódios prova que tem potencial para participar do jogo de Alex Levy. No começo, é obvio que teríamos briga e disputa entre elas e que ao longo dos episódios segue para uma união, pois, elas sacam que o inimigo é outro e as duas sentem na pele a desvalorização que a mulher sofre no campo de trabalho. A rixa entre as duas no começo da série incomodou algumas pessoas, porém, eu acho que foi necessária para a construção de uma luta maior que vai se mostrar no decorrer dos episódios. Elas precisam se unir contra um mundo que, diariamente oprime as mulheres.

A série ainda concorreu ao Emmy por 8 indicações, onde eu vou ressaltar a categoria de melhor ator coadjuvante numa série de Drama que foi para Billy Crudup, simmmmm, ele está maravilhosamente enigmático e eu nunca sei se ele está falando sério ou brincando durante toda a temporada, na pele de Cory Ellison, executivo da emissora.

Billy Crudup como Cory Ellison

Em sua primeira temporada, a série elege, como seu tema principal, seguir na esteira do movimento #MeToo, que advoga contra o abuso sexual, analisando as estruturas que regem os bastidores de um programa de tv de primeiro porte, com suas regras implícitas que elevam suas estrelas a um patamar em que tudo é permitido e nada jamais é negado e, acima de tudo, como este ambiente é um prato cheio para a instalação de uma masculinidade tóxica que é fortalecida por uma cultura de medo, silêncio e permissividade, cujo objetivo maior é não afetar os bônus de fim de ano de seus acionistas. O movimento #MeToo teve início em 2017 a partir do crescente número de acusações de estupro e assédio do mega produtor, e agora devidamente preso Harvey Weinstein. O termo já era usado há muito tempo pela ativista social Taranta Burke, mas foi popularizado pela atriz Alyssa Milano. Tal fato foi bastante esquecido pela imprensa, mas depois redimensionado no prêmio de “Pessoa do Ano” de 2017 para a ativista Burke.

Mrs América

por Larissa Nogueira

Nessa maravilhosa série nós vamos acompanhar a Emenda dos Direitos Iguais, que representou a segunda onda do feminismo norte-americano. E vamos ver mulheres lutando por esses direitos e mulheres lutando contra esses direitos, sim! Isso mesmo, você não leu errado, inclusive esse papel é vivido por Cate Blanchett e você pensa; como assim?! Logo ela que é super milituda pela igualdade de direitos?! Sim, ela quis muito fazer o papel de Phyllis Schlafly e graças a ela conseguimos odiar, amar e até entender essa mulher forte, controversa e conservadora.

Cate Blanchett é Phyllis Schlafly

É uma série então, baseada em fatos reais, e é contada pelas mulheres que foram mais relevantes, Mrs America nos fala dos acontecimentos da década de 70 nos EUA. Nessa época foi levado ao Congresso Norte americano o debate pela ratificação da emenda de Igualdade de direitos (ERA – Equal Rights Amendment) na constituição. Essa emenda que era apoiada pelo Movimento de Libertação da Mulher e buscava garantir através de leis a igualdade de direitos em várias frentes; no trabalho, divórcio e propriedade entre homens e mulheres nos EUA. No meio de toda essa batalha que estava sendo travada surge na cena pública mulheres que passaram a defender os direitos das mulheres donas de casa, que resolveram se organizar e lutar também.

Margo Martindale é Bella Abzug

Os episódios são narrados em ordem cronológica o que traz alívio para muita gente, ainda mais depois de Dark né?! Risos… e vai nos levando a acompanhar os caminhos percorridos por esses dois movimentos. Em Mrs América você sempre vai acompanhar os dois lados dessa disputa e isso é muito interessante. Tudo começa em 1972, quando na iminência da emenda ser aprovada no Congresso dos Estados Unidos, a Câmara dos deputados estabeleceu um prazo de sete anos para que à mesma fosse aprovada em 38 estados, o que seria finalizado somente em 1979.

Gostaria de falar um pouco sobre Phyllis Schlafly, que foi uma das mulheres mais influentes na história do Partido Republicano dos EUA, ela é praticamente desconhecida para quem não está familiarizado com a tradição política norte-americana, mas ela determinou uma grande parte dos valores do movimento ultraconservador norte-americano: a família como elemento central, e o repúdio ao feminismo, ao aborto e ao casamento homossexual (a série mostra que Phyllis tinha um filho homossexual) e que acima de tudo, ela foi a principal promotora do resgate da ideia de que a mulher é basicamente uma cuidadora e mãe, antes que trabalhadora. Só a Cate Blanchett para dar conta de um papel desses não é mesmo?!

Uzo Aduba é Shirley Chisholm

Para além de Cate temos outras mulheres poderosas e militantes feministas,são elas: Rose Byrne (“Damages”) como Gloria Steinem, escritora e cofundadora da revista feminista liberal “Ms.”, que era reconhecida como a líder do movimento; Margo Martindale (adoro ela e não é pouco não!) como a congressista democrata; Bella Abzug; Uzo Aduba (que SÓ ganhou o EMMY por essa atuação) Shirley Chisholm, a primeira mulher de ascendência afro-americana eleita para o Congresso norte-americano e também a primeira a se candidatar à presidência; Elizabeth Banks como a republicana progressista e feminista Jill Ruckelshaus; e Tracey Ullman como Betty Friedan, pioneira do movimento de liberação feminina e autora do emblemático bestseller “A Mística Feminina“‘. O elenco se completa com Sarah Paulson (sim! Sarah em uma série que não é do Ryan Murphy) John Slattery, Jeanne Tripplehorn, Ari Graynor, Melanie Lynskey e Kayli Carter.

Rose Byrne é Glória Steinem

E se depois dessa história e desse elenco eu ainda não te convenci a assisti Mrs America eu vou te falar da trilha sonora, vem comigo. As músicas escolhidas para a série são clássicos da época e nos levam de volta aos anos 70 com canções como “A Fifth of Beethoven“, essa é a música de abertura da série, seguindo com Donna Summer, Rolling Stones, The Kinks e Linda Ronstadt. Claro que eu já baixei todas no meu Spotify e sábado faço faxina escutando e tomando uma cerveja ne?!

“Mrs. America” está para além de uma viagem á década de 70, ela fala conosco hoje, agora, por que apesar tudo se passar nos anos 70, ainda hoje, nos Estados Unidos, a emenda segue sendo tema de debate e a luta continua para que seja ratificada em alguns estados norte-americanos, 12 ESTADOS AMERICANOS AINDA RESISTEM A PROPOSTA. Por isso que, a luta pela igualdade de gênero e a luta do movimento feminista seguem em pauta em diversas partes do mundo.

Onde posso assistir MRs America? No Brasil a série está sendo exibida pela HBO.

Parlamentares e lideranças do PT: Parem. Simplesmente Parem!

por Heliomar Souza

Se ilude e se engana quem acha que os que pregam e pedem uma frente ampla e democrática no país pensam em incluir o Partido dos Trabalhadores nessa tal frente sem exigir, ao maior partido de esquerda da América Latina, que ele abra mão da vontade dos seus mais de 2 milhões de filiados.

As eleições municipais começaram e com ela está brotando novamente, como esgoto a céu aberto, o chamado antipetismo que estava guardado na gaveta dos que odeiam Lula, o PT e a sua história de luta, de acertos, e sim, de erros também, entretanto, o PT acertou mais do que errou e o povo sabe disso!

Hoje, os que dão voz ao PT por estarem na linha de frente, como os atuais deputados federais e estaduais, senadores e lideranças nacionais, precisam parar de errar ao dar voz, aos que até ontem e inclusive hoje, usam os seus espaços e prestígios para atacar o maior partido de esquerda deste país. Se faz necessário parar de dar vez e voz a alguém que prega o antipetismo, apenas pelo fato dela ser crítica ao DESgoverno Bolsonaro.

O PT, seus parlamentares e filiados precisam parar de dar publicidade, em modo de solidariedade, aos que jogam contra o partido na primeira oportunidade que surge, como o youtuber que se coloca como porta-voz da democracia.

Parem. Simplesmente parem!

Se existe algo que precisamos aprender com o ‘cala boca’ que a Globo está dando no Lula e nos protagonistas do PT é o “modus operandi” para ser usado com os que jogam contra, pois, aquela máxima de que, os inimigos do nosso inimigo são nossos amigos, não serve quando o intuito é propagar e difundir o antipetismo quando surge a tão sonhada oportunidade, além de trabalhar para destruir a construção da imagem do partido que a militância faz dia e noite nas redes e nas ruas, quando nas ruas puderam estar.

Por isso, mais uma vez pedimos, parem de dar sobrevida e socorrer os que, ao nos verem sendo atingidos e feridos pela intitulada opinião pública imposta pela mídia, fazem questão de dar em nós, militantes petistas, o golpe final, o golpe da morte.