Se Algo acontecer… Te amo.

Na Tela com a Lari

É um curta de animação disponível na Netflix, de 12 intensos minutos, e tenta nos mostrar com sucesso, a história de como um casal que perdeu a filha em uma chacina em uma escola nos EUA, tenta atravessar esse luto. A animação é dirigida pelos atores Michael Govier e Will McCormack.

O Curta está disponivel na Natflix

Ainda ontem falava para uma paciente que quando você perde o marido, você se torna viúva, quando você perde pai ou a mãe você é órfão, quando se perde um filho não há palavras para isso. Como nos mostra Lacan, esse é o encontro com o Real. O Real Lacaniano, que é inominável, não se nomeia, de tão intenso que é o sentimento, não há palavras para descrevê-lo. A animação fala de muitas coisas, vai desde uma crítica à questão de posse de armas nos EUA e segue falando de perda, vazio e das lembranças que ficam quando alguém que amamos se vai. O Curta acerta, pois apesar de tratar de temas tão duros o faz com leveza e respeito, podemos observar que o passado e presente se misturam em imagens, cenas cheias de alegria, músicas e uma família até então completa. 

Como disse, a animação fala de um país que cultua armas e que defende que a população civil se arme, e estamos falando também de um país que não existe o coletivo, de um país que acredita que você sozinho é capaz de se fazer e que o estado tem zero ou pouca obrigação com você, apesar dos impostos que você paga. Sabemos, e não é de hoje, que os casos mais graves de matança em escolas, acontece nos EUA. Não é para menos! Saindo do pressuposto do coletivo e indo para o individualismo, se eu não consigo o que todos dizem que é fácil de conseguir, seja carreira, amor, sucesso, o que há de errado comigo? Existem aí algumas saídas; suicídio e sair atirando em quem eu penso que contribuiu para o meu fracasso.

o curta fala sobre luto, sobre a eleboração do luto.

Temos vários filmes falando sobre isso e recentemente eu reassisti três deles: Tiros em Columbine, do diretor Michael Moore, Elefante do diretor que eu amo Gus Van Sant, e o maravilhoso, Precisamos falar sobre o Kevin da diretora Lynne Ramsay, inclusive, recomendo muito o livro, pois lá tudo é narrado pela mãe de Kevin e fala também da sua relação com a maternidade.

Filme: Precisamos falar sobre o Kevin.

Vemos através do curta o nítido sentimento de impotência e da total queda de esperanças, sonhos e expectativas. O dia do massacre se mistura na cabeça dos pais com lembranças como o último aniversário de 10 anos de sua filha, essas lembranças são guiadas por sombras, como se elas avisassem o que ia acontecer e que talvez eles poderiam ter aproveitado cada minuto a mais com a filha ou quem sabe até a impedindo de entrar na escola aquele dia. O atravessamento do luto nos leva a pensar na maioria das vezes coisas do tipo: se não, se fosse, eu poderia…

Escola aonde acontece o massacre

As sombras seguem narrando a história e graças a elas temos movimento e podemos pensar também sobre nossas vidas, será que aproveitamos todos os momentos que podemos com quem amamos? Elas nos ajudam também a fazer uma alternância entre o passado e o presente, entre a lembrança e a ausência, entre a tristeza e a cumplicidade, lembrando aqui que às vezes um casal não consegue seguir junto quando uma tragédia dessas acontece, por diferentes motivos.

A animação utiliza a linguagem não verbal e tem nos momentos decisivos uma trilha sonora bem mais intensa. Utiliza o sombreamento para destacar os sentimentos que os personagens estão tendo.

Sombras que ajudam a contar a história relembrando o passado.

No Brasil não temos quase esse tipo de massacre nas escolas, nosso massacre é outro! Nessa semana o Brasil enterrou mais duas crianças negras Emilly (4 anos) e Rebeca (7 anos) primas que brincavam na porta de casa, quando foram alvo de bala perdida. A bala que entrou na cabeça de Rebeca saiu e atingiu o abdômen de Emily. Bala disparada pela PM do Rio de Janeiro.  Só foi preciso uma bala para desfigurar essas famílias.

Nessa semana ainda, o Presidente Bolsonaro zera o imposto de importação de revólveres e pistolas, como sempre, não levando em conta a absurda estatística, em que dezenas de milhares são vítimas de homicídio anualmente no Brasil. Quero lembrar que esse mesmo homem, taxou livros, não há melhor maneira de explicar quem é o presidente de país.

Se você se emocionou assistindo “Se algo acontecer…Te amo” e não se emociona ou se revolta com o que acontece aqui debaixo do seu nariz, você merece o presidente que tem! Eu não, eu votei na esperança, eu votei no Professor, eu votei pelos livros e não pelas armas. O curta tem só 12 minutos, depois de assistir você vai fazer um exercício de reflexão, faça! Te peço que faça, pois 2022 está logo aí.

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