Fleabag

por Larissa Nogueira

Vem comigo e vamos descobrir juntos quem é Fleabag! É uma comédia britânica, uma série de somente duas temporadas com seis episódios curtos em cada, acho que no máximo 25 minutos cada um. É de 2016 e te garanto que vale super a pena assistir, vem mulherada!

FLEABAG, disponível na amazon Prime Video

Foi escrita, produzida e dirigida por Phoebe Waller-Bridge, e é uma das coisas mais impressionantes em termos narrativos já vistos nos últimos anos na televisão. Não é para menos que o nome da roteirista e atriz está crescendo cada vez mais no meio cultural. Além de Fleabag, a inglesa de 33 anos é a criadora da ótima Killing Eve, e está escrevendo o próximo 007 (a pedido de Daniel Craig), também podemos vê-la na Netflix na série Crashing, também de sua criação.

Eu descobri que Fleabag, foi criada a partir de um monólogo feito para o teatro, e quando descobri isso, vi que tinha tudo a ver, pois,  a série conta a história de uma mulher (Phoebe Waller-Bridge), adulta lidando com problemas que todas nós mulheres de alguma forma já lidamos um dia, ou lidamos ainda, que são: problemas de relacionamento, frustração profissional e sexual, dramas e conflitos familiares.

Fleabag, mora em Londres, e é dona de um café que está praticamente falido, e que sozinha tenta atravessar o luto depois da morte de sua melhor amiga e sócia no café. Enquanto isso, vemos Fleabag, tentar se relacionar com sua complicada irmã Claire (Sian Clifford), que é uma executiva de sucesso, seu cunhado podre, Martin (Brett Gelman), seu pai, interpretado aqui por Bill Paterson, e sua madrasta pra lá de megera, papel da sempre maravilhosa Olivia Colman, ganhadora do Oscar de melhor atriz em 2019 pelo filme A Favorita e que faz a Rainha Elizabeth em The Crown.

Um dos motivos que eu amo essa série é a maneira com que ela falou comigo. Sim, a atriz está o tempo todo conversando com quem está assistindo, e eu acho isso brilhante e até me peguei algumas vezes respondendo a algumas perguntas ou brincadeiras que ela faz. E de uma forma sensacional, Fleabag consegue se fazer tão presente e assim, se comunica conosco de uma forma tão intima. Sempre que penso nisso me lembro do filme HER com o Joaquin Phoenix e com a Scarlett Johansson, onde eu consegui sentir a presença dela o tempo todo, mesmo ela não aparecendo uma única vez, adoro esse filme e recomendo demais! Tá, ta bom, eu sei que esse recurso, não é nenhuma novidade em filmes e séries, mas a forma como acontece em Fleabag, me dá a sensação de que é diferente de tudo que já vimos na TV.

FLEABAG, batendo aquele papo com a gente.

Sozinha, super deprimida e usando e abusando do sexo para não pensar nas questões e traumas de sua vida, vemos que Fleabag não tem amigos, ela conta conosco, o público. E como disse acima, nós, quando vemos, estamos conversando com ela em quase todos os momentos, sempre de forma muito espontânea. Ela flerta o tempo todo com a câmera que parece saber o que estamos pensando e assim, olhando para nós, faz com que olhemos ainda mais para ela e vivemos com Fleabag suas agonias, seus segredos e por isso, nós gargalhamos, nos preocupamos e choramos com suas escolhas.

Acho valido ressaltar que não há um tom moralista que demonize a transa casual, ou que diga que o entusiasmo feminino pelo sexo é necessariamente uma expressão de angústia. Também não acho que Fleabag idealiza o sexo sob a aura dourada do empoderamento e do sagrado feminino. Acho que a série acerta e muito quando justamente evita o tom normativo que muitas vezes quer dizer o que o sexo deve ser e o que não deve ser. Vamos pensar nisso? Vocês não tem a sensação também que ás vezes o sexo é, a coisa menos intima que pode rolar? Sexo pode entrar como paliativo para tantas coisas, nos distraindo de nossos demônios, de nossos medos, de culpas, responsabilidades. E essa série não trata da sexualidade feminina de uma forma superficial, não, não! Ela vai fundo e aí a autora se arrisca a nos dizer muitas verdades. E é por isso, acho eu, que tem gente que não curte Fleabag, porque não rola uma resolução cômica, clichês de superação, ao contrário, o que rola na tela, fica mesmo em quem não tem coragem de reconhecer ou de admitir pra si mesmo o que acontece dentro de si.

Phoebe Waller-Bridge, atriz, produtora e diretora da série
Phoebe Waller-Bridge, protagonista, diretora e produtora da série

Eu, acho nossa protagonista uma mulher encantadora e engraçada, que por onde passa ilumina tudo e faz todo mundo rir, mas no decorrer dos episódios vemos que, no fundo, ela carrega segredos, angustias, medos que a fazem repetir comportamentos destrutivos, e o quanto isso vai afastando todo mundo que tenha a mínima intenção de ajudá-la.

Phoebe Waller-Bridge, captura momentos do nosso dia a dia que só nos damos conta quando vemos ali na tela. E é por isso, que as expressões faciais, modos de falar e constrangimentos, são colocados na tela como se fosse um espelho para o público. É tudo tão rápido, como pede o humor britânico, que as vezes fica difícil acompanhar cada detalhe da cena, mas tudo ali é pensado, orquestrado e funcional.

Me perguntaram uma vez: mas essa série só fala de sexo? Se liga, Fleabag fala sobre sexo, sim, mas também sobre franqueza e humor, e também sobre como tudo isso pode ser usado para evitar o incômodo de uma intimidade; ou quem sabe até alcançá-la, quando a intimidade se torna irresistível. Pra mim, é uma história de amor e a mensagem da série é clara ao dizer que estamos diante de uma mulher que diz o que todas pensamos e não temos coragem de dizer. Se o humor de Fleabag alivia um pouco a tensão que sua personagem carrega, ele joga para nós um incômodo, pois quanto mais eu gargalhava em uma cena, mais ela me deixou vulnerável depois, cada piada é imediatamente seguida de um soco no estômago.

Phoebe Waller-Bridge e Andrew Scott, o padre gato!

Pra mim, Fleabag já seria uma obra-prima, só pelo final da primeira temporada, que é quando vemos a nossa protagonista sofrendo uma rejeição absurda, e assistir isso me deu uma experiencia muito mais intima do que qualquer piada com vibradores.  Só que essa é apenas a metade da história. A série retorna, em sua segunda e última temporada, disposta a mostrar que o mesmo jogo de sedução que serve como dispositivo de distanciamento serve, também, para nos aproximar do outro. Chega abordando o amor, e o quanto é aterrorizante amar, principalmente para alguém que se odeia e que sempre se sentiu ameaçada pelo amor. E aí entra o Padre, apelidado pelos fãs da série, inclusive eu, de “o Padre gato” (só vou dar esse spoiler) e ele reconhece que não é fácil pensar em algo original a se dizer sobre o amor, parece até ironia né gente, porque Fleabag, é vista como a série mais original de 2019, só que eu penso que o amor segue sendo um assunto que não se esgota, porque existem muitas coisas a serem ditas sobre, desde que se tenha coragem.

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