Years and Years

por Larissa Nogueira

Nós que acompanhamos o mundo das séries de TV, eu mesmo sendo rata de série, acho impossível ficar totalmente atualizada. São tantas estreias e retornos a cada mês, fora as séries antigas que descobrimos e que queremos assistir, e ficar em dia com tudo isso é pra mim, inalcançável. E com o tempo, assistindo a tantas produções diferentes, poucas coisas realmente conseguem me surpreender. Years and Years é uma delas! Foi criada por Russell T. Davies (A Very English Scandal, Doctor Who) é uma produção da BBC One, exibida no Brasil pela HBO e se destaca no vasto e concorrido universo televisivo justamente por ser algo totalmente novo e imprevisível.

 Na trama aparentemente simples, acompanhamos uma família durante vários anos, e vemos as relações entre casais, pais e filhos e o conflito de gerações. O ponto alto, aqui, é o contexto! Years and Years pega pesado nos comentários sociais e políticos e isso faz com que o contexto familiar se afaste dos clichês e convencionalidades do gênero. Ao passo que a família segue seu curso, suas vidas são alteradas por fatores externos e muito maiores, porque são acontecimentos que ultrapassam o núcleo familiar.

Família Lyons

Enquanto o Reino Unido é tomado com instáveis avanços políticos, econômicos e tecnológicos, nós vamos acompanhamos a família Lyons e como as suas vidas convergem para a crucial noite em 2019, que muda a vida não só deles, mas do mundo todo. E pelos próximos 15 anos, as reviravoltas do cenário mundial vão influenciar o cotidiano dessa família. E aí surge Emma Thompson, na pele de uma política de extrema direita e bota extrema nisso!  E ela rouba a cena e personifica todos Bolsonaros e Trumps do mundo, Rooky (sua personagem) nos mostra de forma bem construída ao mostrar como um autoritário consegue chegar ao poder sendo popular e falsamente democrático. Sacou?!!!!

Emma Thompson, na pele da política de extrema direita Roock

Já enfrentamos hoje problemas como o desemprego, fome, grandes rotas de imigração e os impactos da tecnologia no dia a dia e na política. A União Europeia, por exemplo, recebeu o maior fluxo migratório de sua história nesta década, um número bem maior do que o dos períodos das duas Grandes Guerras Mundiais. No Brasil, o desemprego está na casa dos 14,4% e não apresenta sinais de melhora há pelo menos 5 anos. Diante desse cenário, quais são nossas perspectivas de futuro?

Por isso, essa semana, quando estamos próximos do segundo turno para prefeitxs na maioria das capitais brasileiras, eu quis falar dessa série. Nosso voto é importante e não podemos eleger candidatos aliados a extrema direita e nem nos isentar e votar nulo.

A série aumenta a realidade de agora tendo como ponto de vista um futuro pessimista e possível. Logo vem à tona o quanto é nocivo um governo que chega ao poder, com seu populismo barato, ignorando as questão das mudanças climáticas — na série vemos meses de chuvas ininterruptas —, o avanço da tecnologia, que muito diferentemente da visão de Black Mirror, nos mostra um futuro mais brando e nada futurístico, mas não menos perturbador. A série teoriza até que, no futuro, teremos apagões e quedas de energia e isso fará a popularidade do papel aumentar, obrigando que gente voltar a ler jornais impressos ou livros, pois são menos suscetíveis a panes tecnológicas. Por que será que me lembrei do que está se passando no Amapá?!

Bom, voltando para Years and Years, onde nesse cenário, Trump não apenas é reeleito em 2020, como lança um míssil nuclear em uma ilha fictícia da China, montando operações militares na base ocupada, pelo menos disso nos livramos né?! Enquanto isso a Rússia assume a Ucrânia à força e há um colapso nos bancos e no mercado de ações, o que faz todo mundo perder o dinheiro que tinha guardado. A tecnologia agora permite que humanos se tornem “trans-humanos”, e assim viver digitalmente e para sempre. As florestas tropicais não existem mais, o Pólo Norte derreteu e, como nos dias de hoje, a maioria não dá a mínima para nada isso.

Campos de concentração de imigrantes na Inglaterra

O que eu adoro na série é que ela desenvolve suas histórias de forma bem imprevisível. O primeiro episódio, por exemplo, começa de forma descompromissada e transita entre o drama familiar e a comédia. Com o tempo, começam a aparecer as ideias fortes acerca da política, sociedade e tecnologia. Calma ai genty! Years and Years não é uma série totalmente política. Apesar dos discursos poderosos, a série não é House of Cardsnem panfletária. Eu ainda vejo a série como um drama familiar com grandes doses de humor, humor britânico, que eu adoro! Arrisco dizer que Years and Years é um espelho das nossas vidas em família, porque seguimos tendo a nossa vida e momentos próprios e pessoais, mas o contexto social, político e econômico ainda nos impacta em maior ou menor grau. A série tenta colocar uma lupa nos absurdos que vemos hoje, aumentá-los e mostrar o que poderá ser daqui para frente se nós não acordarmos. Aliás, ninguém acorda.

Years and Yearsportanto, é uma distopia dos dias atuais. Além disso, quando explora a passagem do tempo, a série brinca com falsas mudanças onde apesar da troca de presidentes e da morte da rainha, nada muda de verdade. O surgimento de Rook, a política fora dos padrões, reflete o surgimento de diversos outros falsos salvadores ao redor do mundo. Com isso, vemos que o discurso engraçado e populista dos políticos não representa uma mudança ou sequer a presença de ideais e planos.

Uma pausa aqui para falar da avó da família, que pra mim, é protagonista de uma das melhores cenas da série, quando ela faz um discurso dizendo que todos ali são culpados e responsáveis pelo mundo estar daquele jeito. Eu revi essa cena várias vezes, várias e me arrepiei em todas as vezes.

CRÍTICA – Years and Years – Papo Furado Podcast
Momento marcante do discurso da Avó da família Lyons

Um adendo: a série erra em alguns momentos quando por exemplo, compara um governo de extrema esquerda com um de extrema direita, como se todos fossem farinha do mesmo saco, e não é né mores?! Até porque dá a entender que a racionalidade está reservada ao centro e ao liberalismo econômico. Morry mil vezes.

Muitas pessoas não conseguiram assistir toda a série, muitas acharam que o soco no estômago é forte demais. Eu assisti duas vezes e penso que é um chamado para agirmos, pois lembrando o discurso da avó, se hoje temos tantos problemas assim, a culpa é nossa. Talvez, tudo pudesse ser evitado se nós agíssemos e fizéssemos a nossa parte.

Por esse motivo quis trazer Years and Years, porque as eleições para prefeito estão para serem decididas em várias cidades e sim, temos a chance de mudar o curso da nossa história e se não fizermos seremos culpados. Assim como na série não é momento de ficar sentado na frente da TV rindo de candidatos que nos parecem absurdos, mas que encontram a sua plateia. Assim como a vida, Years and Years é uma minissérie perturbadora e sensacional, e não é pros fracos do coração.

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