Inacreditável

por Larissa Nogueira

Eu adoro séries feministas! É tão bom para pensar sobre o papel da mulher no mundo. Quando a gente explora o catálogo da Netflix, encontramos várias produções com personagens feministas maravilhosas e que nos inspiram com suas histórias que buscam igualdade, respeito e liberdade, através de suas vivências e lutas. Assim, mergulhamos na liberdade sexual feminina, na desconstrução de condutas machistas, na independência financeira e emocional das mulheres e na sororidade. Adoro essa palavra! E também, tratam da não exploração e objetificação do corpo feminino, na emancipação e põem em cheque o sistema patriarcal. Né isso mulherada?!

Então vamos mergulhar de cabeça em Inacreditável! Inacreditável é uma minissérie de investigação criminal, baseada no livro Falsa Acusação: Uma história verdadeira. A saber, conta a história real da jovem Marie Adler (Kaitlyn Denver), que foi acusada de falsa denúncia de estupro.

725Kaitlyn Denver como Marie Adler

A série aborda o tema do estupro, da violência e do machismo de forma tão realista que eu fiquei com um nó no estômago, e isso incomodou muita gente, pelo menos as pessoas com quem eu troquei figurinhas sobre a série. E é uma história contada em duas linhas do tempo, com cidades e anos diferentes, mas ainda assim, interligados. Uma delas se passa em Washington no ano de 2008 e nos traz a dramática história de Marie Adler a outra se passa no Colorado, em 2011, que retrata o sério e árduo trabalho de duas investigadoras, Karen Duvall (Merrit Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette).

Merrit Wever como Karen Duvall e Toni Collette como Grace Rasmussen

Marie desde criança leva uma vida extremamente difícil, sempre em lares adotivos desde os três anos de idade, sofreu várias agressões psicológicas e físicas, vemos uma cena em que ela é alimentada com comida para cães, e no ano de 2008 Marie é estuprada e acaba retirando a queixa e alega falsa acusação, após ser pressionada pela polícia, pois segundo os dois policiais homens que cuidam do seu caso “não havia provas que comprovassem o crime” e por Marie ser “uma moça complicada que viveu muitos traumas” poderia ter “inventado” o estupro.

Uma pausa aqui, porque acabamos de ver algo semelhante acontecer no Brasil com o caso da Mariana Ferrer e foi por isso que eu fiz questão de trazer essa série que não é super nova no catálogo da Netflix, porém super atual.

Em 2011 um caso semelhante de estupro acontece e a investigadora Karen Duvall assume o caso. Semelhante porque como o caso de Marie, o local e a vítima não tinham nenhuma prova do estupro. E Duvall encontra muitas semelhanças entre o seu caso e o da investigadora que é super reconhecida e admirada Grace Rasmussen (Colletti). Elas se juntam nessa jornada em busca de um possível estuprador em série e nessa hora eu dei pulos no sofá, porque pense em duas atrizes que eu amo de paixão! Toni Colletti desde que fez o Casamento de Muriel em 1994 e Merrit Wever por sua saudosa atuação em The Walking Dead.

Fiquei de cara já chocada com a forma que Marie, a vítima, é tratada pelos policiais, que são todos homens diga-se de passagem e sem nenhum conhecimento, treinamento ou mesmo empatia e logo vemos como uma vítima de estupro recebe um tratamento distante e cruel do Estado. Assistimos a momentos absurdos, que vão desde a vítima ser interrogada várias, eu disse várias, várias vezes por pessoas diferentes, o exame de corpo de delito, o registro na delegacia e tudo isso acompanhado do total descaso dos policiais e a falta de preparo e tato para lidarem com um caso tão delicado e que pode realmente acabar com a vida de uma mulher. E é por isso que Marie, você já devia estar se perguntando, retira sua denúncia. Vale lembrar que Marie está sempre sozinha, sem nenhum apoio ou afeto.

Só quem nem tudo está perdido, pois com a chegada das investigadoras, nós sentimos um alívio enorme e já percebemos o abismo entre o tratamento dado às vítimas com polícias homens e mulheres. Karen e Grace se preocupam com o estado psicológico da vítima e dão suporte emocional a elas. A sororidade entre mulheres é, no mínimo, acalentadora.

Vemos então, o quanto é importante ter policiais mulheres á frente de uma investigação sobre casos de estupro e violência doméstica e esse é um ponto forte da série que faz também uma denúncia da falta de segurança pública, denuncia o protecionismo do Estado quanto aos policiais homens, e denuncia também o despreparo de policiais e o não acolhimento do Estado com vítimas de abusos sexuais. Só para registrar, a trilha sonora é boa e tem uma cena em que a detetive Karen está dentro do carro buscando por pistas de forma exaustiva, e tem um breve minuto de descontração quando começa a tocar no rádio a música “All Around The Kitchen”, do Pete Seeger, canção da década de 1950 que aparece no quinto episódio da série.

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