The Morning Show

por Larissa Nogueira

Em busca de sua fatia de mercado na batalha do streaming, a Apple entra na disputa com o Apple TV+. Em um mercado já dominado pela Netflix e no qual cada vez mais serviços disputam espaço, o novo serviço chega com o drama “The Morning Show”, estrelado por, Steve Carell, Jennifer Aniston e Resse Withersponn sendo que as duas são produtoras executivas da série também.

Depois de 15 anos de espera, após o término da inesquecível série Friends, Jennifer Aniston, sim ela mesma! está de volta a TV com a série The Morning Show. E Aniston volta dando um show e faz uma bela escolha, pois, ela vai desafiar um mundo dominado por homens e nos mostra que nós mulheres precisamos lutar muito ainda para ter respeito e autonomia.

The Morning Show nos conta a história de Alex Levy (J. Aniston), uma ambiciosa apresentadora de TV, que confronta o sexismo e a diferença de idade no seu trabalho. Alex é uma das ancoras de um programa matinal de maior prestígio nos EUA, que se chama – Morning Show. Logo de cara já ficamos sabendo de um escândalo, que envolve o âncora do programa, sobre abusos sexuais com colegas de trabalho. E vemos que Levy é pega de surpresa quando seu colega de trabalho e amigo, há 15 anos juntos na bancada do programa, Mitch Kessler (Steve Carell), que está sensacional nesse papel, é demitido após vir à tona alegações de assédio sexual. Assim, de uma forma muito sutil, as camadas que englobam a cultura do silêncio vão aparecendo.

Alex Levy (Jennifer Aniston) e Mitch Kessler (Steve Carell)

Levy (J. Aniston), se vê em uma situação muito complicada, porque ela terá que se posicionar e noticiar o fato para o mundo. Nesse meio tempo, ela descobre que ela estava prestes a ser demitida, por estar sendo considerada velha demais pelos executivos da empresa, e então, ela se aproveita do caos que reina para renovar seu contrato.  Nesse cenário confuso, surge a jovem Bradley Jackson, interpretada pela maravilhosa Reese Witherspoon, que trabalhava numa emissora do interior e que de repente, após uma discussão durante um protesto, fica conhecida nacionalmente, pois o vídeo da discussão viraliza no YouTube. Depois disso os chefões do jornalismo da emissora de Levy, querem que Levy e Bradley, estejam lado a lado durante as manhãs apresentando o programa.

Alex Levy (Jennifer Aniston) e Bradley Jackson (Reese Witherspoon)

Levy, inconformada e seguindo seu instinto de jornalista investigativa, decide ir mais a fundo no caso de assédio sexual envolvendo Kessler dentro da emissora. E começa a se perguntar, afinal, todos os relatos que ela já tinha escutado eram verdadeiros? Seus colegas sabiam de tudo e nada fizeram para evitar? Uma pausa aqui para exaltar um filme maravilhoso, e que eu indico muito, que se chama “ O Escândalo” com as deusas Nicole Kidman, Charlize Theron e Margot Robbie, baseado em fatos reais, nos mostra que a emissora de TV – FOX NEWS – esteve envolvida num escândalo de abuso e assedio sexual, e o quanto as pessoas que estavam lá dentro trabalhando sabiam e nada faziam para que isso tivesse fim,  e isso tem nome; chama-se a CULTURA DO SILÊNCIO E CULTURA DO ABUSO, essa na maior parte das vezes, é feita por homens poderosos que usam do seu cargo para forçar práticas sexuais com mulheres em posições inferiores, dentro da hierarquia da instituição.

Kessler não é o único vilão da trama, tem, inclusive, uma cena muito boa em que ele conversa com um amigo que é diretor de cinema e que também é acusado de abuso sexual. Durante essa conversa, ele percebe que não quer estar no mesmo lado daquele homem e diz: “Somos diferentes, você é realmente um predador sexual”. Os   executivos da emissora que tentaram abafar o caso o máximo possível, também se colocam numa posição de oponentes, e é nesse momento que a trama faz de Jennifer Aniston a verdadeira protagonista. Uma protagonista, que é zero boazinha diga-se de passagem! E é isso que torna a trama interessante, uma vez que você passa a torcer por Levy, mesmo sabendo que ela não é uma pessoa muito correta, né?

Eu acho que a série acerta também em escancarar a ação de Mitch e de mostrar como ele não enxerga (ou prefere não enxergar), a gravidade de seus atos. Na relação dele como Hannah (Gugu Mbatha-Raw), vemos como as cicatrizes perduram e causam danos permanentes. Vemos então aí um dos grandes problemas estruturais de emissoras de televisão que criam ambientes e uma cultura de proteção às suas estrelas e, assim, viram as costas para os casos de abuso.

E o que dizer de Resse Whiterspoon?! Sua personagem começa um pouco tímida na série, mas logo cresce, e sim, como sempre ela vem abalando todas as nossas estruturas. Sua personagem é determinada e preza pela ética. Mas Bradley Jackson (Resse) não é boba e, ao longo dos episódios prova que tem potencial para participar do jogo de Alex Levy. No começo, é obvio que teríamos briga e disputa entre elas e que ao longo dos episódios segue para uma união, pois, elas sacam que o inimigo é outro e as duas sentem na pele a desvalorização que a mulher sofre no campo de trabalho. A rixa entre as duas no começo da série incomodou algumas pessoas, porém, eu acho que foi necessária para a construção de uma luta maior que vai se mostrar no decorrer dos episódios. Elas precisam se unir contra um mundo que, diariamente oprime as mulheres.

A série ainda concorreu ao Emmy por 8 indicações, onde eu vou ressaltar a categoria de melhor ator coadjuvante numa série de Drama que foi para Billy Crudup, simmmmm, ele está maravilhosamente enigmático e eu nunca sei se ele está falando sério ou brincando durante toda a temporada, na pele de Cory Ellison, executivo da emissora.

Billy Crudup como Cory Ellison

Em sua primeira temporada, a série elege, como seu tema principal, seguir na esteira do movimento #MeToo, que advoga contra o abuso sexual, analisando as estruturas que regem os bastidores de um programa de tv de primeiro porte, com suas regras implícitas que elevam suas estrelas a um patamar em que tudo é permitido e nada jamais é negado e, acima de tudo, como este ambiente é um prato cheio para a instalação de uma masculinidade tóxica que é fortalecida por uma cultura de medo, silêncio e permissividade, cujo objetivo maior é não afetar os bônus de fim de ano de seus acionistas. O movimento #MeToo teve início em 2017 a partir do crescente número de acusações de estupro e assédio do mega produtor, e agora devidamente preso Harvey Weinstein. O termo já era usado há muito tempo pela ativista social Taranta Burke, mas foi popularizado pela atriz Alyssa Milano. Tal fato foi bastante esquecido pela imprensa, mas depois redimensionado no prêmio de “Pessoa do Ano” de 2017 para a ativista Burke.

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