Breve nota sobre desigualdade atribuída na questão econômica

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Breve nota sobre desigualdade atribuída na questão econômica

por Otávio Carvalho

Desde os tempos mais remotos, faz-se presente a questão das desigualdades sociais. Todavia, mesmo diante de inúmeras evoluções, a organização de aldeia global do século XXI mostra que o tema em questão ainda é recrudescente. Nessa perspectiva, convém analisar a raiz histórica, a relação social e a própria organização da sociedade de modo a elucidar possíveis reflexões e viabilidade de redução.

Em primeiro lugar, é pertinente compreender a origem de tal e seu papel histórico. Nesse sentido Jean-Jacques Rousseau, importante filósofo iluminista, analisara que as desigualdades entre os homens, atribuem-se como consequência da noção de propriedade privada. Prova disso é evidenciada na concentração de renda, distribuição espacial e segregação social. Fatores advindos da desigualdade social que permuta a história como peça chave da organização atual da sociedade.

Karl Marx, pensador alemão e principal expoente do método materialista de análise, afirma que “A história de todas as sociedades até nossos dias é a história de lutas de classes.” […] “Nas anteriores épocas da história encontramos quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos estados [ou ordens sociais — Stände], uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, oficiais, servos, e ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo gradações particulares. A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas”. E valemo-nos de tal fundamento a reflexão do que é a desigualdade e como se posterga ainda que já estejamos a todo mastro com os ventos do desenvolvimento.

Compreender a desigualdade numa sociedade é fator chave na história do mundo pautado em luta de classes. Aquela, é manifestada através de algumas formas claras como o racismo, analfabetismo, pobreza extrema e etc. Regras gerais como níveis de serviços básicos, escolaridade, acesso à cultura e outros mais, são indicadores sociais de tal, entretanto, atualmente vale-se majoritariamente do Coeficiente de Gini – baseado na distribuição de renda de um país – para demonstrar os níveis. Reduzir estes abismos sociais tem sido a ordem do dia a nível mundial, tal que, estas não estão sendo reduzidas em uma proporção satisfatória, portanto é afirmado como objetivo entre outros 16 no projeto de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Devido o modo de organização de produção capitalista, sumariamente as desigualdades apresentam-se como pensamentos vigentes e conservadores tanto ao que diz respeito para o meio social mas também ao meio econômico. É necessário que haja, no sistema tal, uma ideologia de inferioridade de uns em relação aos outros, para que ao final do processo, isso permita que através das desigualdades se possa continuar a acumulação capitalista. Como aponta o materialismo histórico-dialético: as contradições entre as classes – antagonismos de interesses.

Reduzir a disparidade social passa pelo processo de superar as mazelas que a questão de classe conduz e, não apenas possibilitar a inclusão das minorias e ou o consumo por parte dos menos favorecidos. Reduzir aqui, a mazela seja do racismo, homofobia ou etc, passa por uma questão de classe pois a “Discriminação racial é encontrada na África, na Ásia, e em todo o mundo. A questão racial é, essencialmente, uma questão de classe.” (“A Questão Racial é uma Questão de Classe”; Mao Tse-tung).

Caminhos infindos ao longo dos tempos mais atuais são pautas discutidas acerca da redução das desigualdades. A Social-democracia, modelo com elementos socialistas mas que mantém o esqueleto republicano e um nível de liberdade econômica resgatada do liberalismo, tem surgido como uma alternativa viável, tal que, países europeus e nórdicos o fazem e garantem melhores níveis de desenvolvimento e menor desigualdade social. Entretanto, na prática elas ainda existem, apenas são mitigadas e maquiadas como bem estar e falsa democracia de modo que os ricos,dominantes, continuam mais ricos e os desfavorecidos, pobres, continuam pobres porém com mais acesso ao consumo, – vide o Brasil, tal que, os direitos são assegurados por lei mas não são cumpridos no mundo material -. Reduzir é importante, porém não apenas reduzir é necessário e sim a superação do estado de exploração e expropriação do homem pelo homem. Aufhebung: negação, conservação e superação.

Não menos importante é necessário reduzir a um exemplo prático o que é a redução das desigualdades sociais – expressas aqui na questão de classe -, pois, popularmente evoca-se que a única saída para as mazelas do mundo é a educação, contudo, esta também passara a ser uma mercadoria, de modo que o meio público Brasileiro e dos países periféricos do eixo central do meio capital, oferece educação universal e gratuita, entretanto a educação privada e acessível apenas àqueles que possuem renda estritamente maior que a população geral, é inegavelmente superior em todas as questões. Numa situação hipotética, se um grupo melhor situado em equivalências monetárias apropria-se de uma renda de 10 e o grupo mais pobre de 1 e, no período seguinte os mais ricos possuem 8 e os mais pobres 3, reduziu-se a desigualdade. Se em outro período conservara-se, respectivamente, 10 e 1, e no próximo período, o grupo melhor situado passa a ter 15 e o mais pobre de 3 — leia-se aqui a maior exploração pelos países ricos frente aos pobres, devido ao grau de elevação que encontra-se o capitalismo, como coloca David Harvey, geógrafo britânico, o capital chega ao nível de extrapolar as barreiras físicas de modo que consiga sustento em outro sítio –, a desigualdade não foi reduzida mesmo que as condições que promovam estas foram reduzidas, haja vista que, o grupo dominante e detentor da ideologia dominante continua o mesmo, apenas usando o acesso ao consumo, que ao final do processo, possibilitara que os excluídos tenham mais possibilidades de desenvolvimento, possuindo maior escolaridade, logo maior renda e melhor inserção no mercado de trabalho; Racismo e outras formas veladas de preconceitos diminuem pois, os atacados agora estão mais ‘humanos’ e etc.

Por fim, em síntese, a redução das desigualdades passa por um longo processo de compreensão histórica totalmente não fixo e não separado das ações que tomam-se hoje que, aponta os motivos pelos quais se ocorre e por fim os motivos pelos quais os superam-se. Alternativas em curto prazo para que haja uma redução satisfatória, estão ligadas para com a melhor distribuição de renda, quiçá uma reforma agrária. Inclui-se ainda no parâmetro social, a questão da educação e consciência coletiva de modo a superar a mazela preconceituosa que, por vezes ainda manifesta-se na sociedade. Investimentos monumentais na questão educacional, como solução prática visando resultados até 2030 possibilitariam um eixo de resultados melhores mesmo que mascarados no todo. É imprescindível que medidas sejam tomadas porém convém elucidar que ações do hoje, provocarão melhores resultados num futuro mais distante, tendo em vista a historicidade do tema e sua conexão com as relações sociais, tal que, como situa Marx, de que não devemos buscar as origens das transformações sociais no seio individual, mas no modo de produção – relações sociais – de cada período. Assim, a viabilidade de soluções encontra no eixo histórico dos interesses, firmados no presente e colhidos no futuro.

REFERÊNCIAS

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2019/12/09/brasil-e-o-7-mais-desigual-do-mundo-melhor-apenas-do-que-africanos.htm. Acesso em junho de 2020.

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/02/20/por-que-brasil-e-o-setimo-pais-mais-desigual-do-mundo.html. Acesso em junho de 2020.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/06/ibge-renda-dos-1percent-mais-ricos-e-337-vezes-a-dos-50percent-mais-pobres.ghtml. Acesso em junho de 2020.

https://www.infoescola.com/filosofia/rousseau-e-a-desigualdade-entre-os-homens/#:~:text=O%20amor%20conjugal%20e%20o%20fraternal%20surgem%20nesse%20momento%2C%20segundo%20Rousseau.&text=Assim%2C%20segundo%20Rousseau%2C%20as%20desigualdades,para%20subjugar%20os%20seus%20semelhantes. Acesso em junho de 2020.

https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/desigualdade-social.htm#:~:text=Segundo%20Marx%2C%20a%20origem%20da,de%20trabalho%2C%20expropriada%20pela%20burguesia. Acesso em junho de 2020.

https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/cap1.html.  Acesso em junho de 2020.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_Gini. Acesso em junho de 2020.

“A Questão Racial é uma Questão de Classe”, Mao Tsetung (https://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-9/mswv9_06.htm?fbclid=IwAR1U-hXCCDIrwnukZyHiSy80ntjm1UKW23ilCIEpUyuzt-3KyOlWr-VSPsY). Acesso em junho de 2020.

A Produção Capitalista do Espaço; HARVEY, David.

https://jacobin.com.br/2019/10/por-que-o-capital-continua-relevante/. Acesso em junho de 2020.

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