A PANDEMIA DOS PRIVILEGIADOS

por Jacqueline Vallejo

Não tem como falar do atual momento em que vivemos, em plena pandemia de Covid-19, e não falar de privilégios. As ações sejam governamentais, sejam as orientações da OMS, tem um público específico, os privilegiados. Não é para todos, existe uma camada de pessoas excluídas, invisíveis, que só são lembradas quando seu contingente numérico é necessário para eleger ou sustentar discursos demagogos. Vamos ser claros, na comunidade, no barraco colado no outro, com ruelas estreitas e insalubres, que medem aproximadamente míseros 6 m², com em torno de 6 pessoas, sem emprego, sem internet, sem celular, sem comida, com muita fome, essas pessoas irão usar álcool em gel, máscaras, irão pedir auxílio emergencial?

São dessas pessoas que eu gostaria de falar, pois não estão sendo atendidas nas políticas, nesse governo inoperante para os mais pobres. E são essas, que em sua condição de miserabilidade, vão as ruas diariamente, buscando levar para casa sua sobrevivência, e se sujeitam ao risco, ao fatídico vírus. São essas pessoas que enfrentam diariamente a truculência do braço armado do Estado, ou do poder paralelo, que nesses locais se comportam de forma semelhante. Se não são mortas pelo vírus, seus destinos estão lacrados numa bala perdida, num suposto engano (para eles todos são muito parecidos), numa queda mortal de um prédio chique, e não por coincidência, são corpos negros. Porque o pobre no Brasil tem cor, o bandido no Brasil tem cor, a pessoa em situação de rua no Brasil tem cor.  Mas, não tenho lugar de fala para discursar sobre racismo, e temos muitos autores pretos maravilhosos para ler, como Silvio Almeida que faz uma explicação sensacional e super didática sobre racismo individual, institucional e estrutural, a Vilma Piedade que tem um livro sobre “Dororidade”, lançando esse conceito, e outros pretos espetaculares que devem protagonizar sempre esse tema. Eu fico na minha posição antirracista fazendo coro, e batendo palma para eles.

O que pretendo com o texto é falar da miséria, da falta de programas que visem a manutenção da vida de milhares de pessoas nesse período de pandemia, onde o isolamento social é fundamental, mas não é possível para todos. Essa semana ouvi o relato de uma jovem de comunidade que passou 20 dias em casa, juntamente com a mãe, ambas acometidas do novo coronavírus, que provavelmente se infectaram ao ir no supermercado. Na comunidade não tem delivery. Não tem entrega, simples assim. E ela falou algo que ficou martelando na minha cabeça, quem pode fazer o isolamento vai pra rua por NADA. Sim, os que deveriam estar em seus lares usufruindo do privilégio de ter condições de se proteger e proteger o outro, vão as ruas por NADA, só para sua satisfação, como se não houvesse o amanhã.

Caso essas pessoas tivessem consciência, responsabilidade e o dever de selar pela vida, e ficassem em casa, sairíamos mais rapidamente da quarentena, pois diminuiria a transmissão, e as pessoas que realmente precisam sair não estariam tão expostas ao vírus. Só que o egoísmo, o exacerbado individualismo, o negacionismo, imperam nessa sociedade que tem no cargo maior do país um sujeito que almeja o caos social, que incentiva o comportamento contrário as recomendações sanitárias, que precisou receber uma intimação para fazer uso da máscara, sujeito a pagamento de multa caso cometer infração. É inconcebível imaginar que milhares de pessoas estão morrendo por conta da irresponsabilidade, da negligência, falta de interesse de gerir os recursos públicos em favor dos necessitados.

Antes da pandemia, esse governo genocida já havia mostrado seu desprezo pelo assistencialismo, através de uma medida acabou com o trabalho dos assistentes sociais dentro dos postos do INSS, prejudicando principalmente a população pobre e analfabeta. E os CRAS e CREAS (Centro de Referência de Assistência Social e Centro de Referência Especializado de Assistência Social) que nesse momento deveriam estar dentro das comunidades fazendo novos cadastramentos e assumindo as ações que foram deixadas para a sociedade civil? Não tem quadro de servidores para isso, estão precarizados, não recebem incentivos para funcionar dignamente. Nem a primeira dama, que normalmente tem a tradição de assumir o assistencialismo, é inapta, inoperante, inexistente. Esse governo é míope, não enxerga, e nem quer enxergar seu povo.

Provavelmente essa pandemia ficará como uma grande lição de como não governar um país, e como alerta para novas eleições.

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