Os Tristes Anos dos Povos Indígenas

por Artemis Zamis

Quando Abraham Weintraub na fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, entre tantos impropérios e ofensas, se dirigiu aos povos originários do Brasil com todo seu desdém, ódio, deboche e menosprezo a toda a nação indígena, via-se ali a atitude de um aluno aplicado que aprendeu rápido os contornos de um projeto, já em execução, de extermínio do povo indígena. Sei que surgirão pessoas que provavelmente dirão tratar-se de um exagero, mas é fácil constatarmos tratar-se de um fato, com apenas algumas consultas na mídia sobre o que tem ocorrido nos últimos meses com os índios no Brasil. “Odeio o termo “povos indígenas”, odeio esse termo. Odeio. O “povo cigano”. Só tem um povo. Pode ser preto, pode ser branco, pode ser japonês, pode ser descendente de índio, mas tem que ser brasileiro, pô! Acabar com esse negócio de povos e privilégios. Só pode ter um povo”, disse o ex-ministro da educação.

Já se foram 520 anos desde que os portugueses aportaram por estas bandas, e é exatamente o mesmo tempo em que massacram, exploram, matam e torturam, nossos irmãos índios. Em 1500, os nossos conquistadores viam os índios como seres de segunda classe, atrasados, selvagens, imorais. Achavam também que não tinham alma, e na incapacidade de escravizá-los, aliado a ideia de que atrapalhavam a pilhagem das riquezas naturais, era melhor que começassem desde já a matança sem trégua, que dura até os dias de hoje. Só no período da ditadura militar foram dizimados mais de 8 mil índios, por estarem atrapalhando a abertura de estradas idealizadas pelo Programa de Integração Nacional que levaria o “progresso” até os mais longínquos rincões da mata amazônica. 75% da população dos Waimiri-Atroari, foram mortos em um curto período de menos de 15 anos. Os Panarás perderam 84% de seu povo, metade dos Parakanás foram igualmente mortos e apenas 10% dos Yanomamis do rio Ajarani conseguiram escapar do extermínio em prol do “progresso”.

Hoje os índios ainda continuam “impedindo o progresso”. Em Belo Monte e Tapajós, os Arawatés, Jurunas, Araras e Mundurucús, em São Paulo os Guarani-Mbya e em Mato Grosso do Sul os Guarani-Kayowá continuam “impedindo o progresso” do agronegócio. É cruel e avassalador o que fazem há 520 anos com a nação indígena. De todas as mudanças radicais que tivemos desde então, no Brasil e no mundo, nada, absolutamente nada, mudou para os povos indígenas. Em 1500 eram em torno de 5 milhões, com mais de 1000 tribos, e hoje não passam de 900 mil índios com cerca de 305 etnias.

A pandemia, que hoje passamos, está sendo o golpe de misericórdia para esse povo. Não bastasse o descaso das autoridades, a dificuldade das distancias e a falta de empenho dos órgãos competentes para atendê-los, estão sendo largados à própria sorte. O índice de suicídios é assustador e o choro por conta desse sofrimento interminável é constante e totalmente desumano. Por mais incrível que possa parecer, o homem branco que extermina os índios de hoje é o mesmo de 520 anos atrás. Nada mudou. Nem os motivos, nem os projetos. Morrem, por defenderem o que lhes é de direito, sua floresta e sua biodiversidade. É tudo o que possuem e é tudo o que mais querem.

A nossa Amazônia abriga a maior biodiversidade do mundo e é essencial para o equilíbrio climático de todo o planeta. Os índios são os guardiões desse enorme bem e agora precisam de ajuda para continuarem a guardar o que temos de mais precioso para a continuidade do homem.

É chegado o momento de nos unirmos de maneira forte e contínua, para cobrar das autoridades constituídas e das que elegemos, providencias objetivas, claras e rápidas no sentido de que parem de imediato com essa crueldade aos índios e levem aos tribunais, os executores e causadores de mais essa triste tragédia humanitária agravada nesses últimos anos.            

Salvem os povos originários!
Salvem os guardiões de nossas florestas!

Por que se orgulhar faz bem à saúde LGBTQIA+?

Por Felipe Medeiros

Junho é o mês do orgulho LGBTQIA+. Em 28 de junho de 1969, o grupo de pessoas travestis, transexuais, gays, lésbicas e bissexuais que frequentavam o bar “Stonewall Inn” resolveu se revoltar – leiam resolveram mostrar a força das monas, das minas e dos manos contra a truculência do sistema LGBTfóbico – contra a violência policial que acontecia frequentemente em Nova Iorque, trazendo então uma onda de manifestações em prol do respeito e pelos direitos das pessoas LGBTQIA+. Essa onda se refletiu por todo o mundo, colocando as pessoas LGBTQIA+ nas ruas, lutando por seus direitos de existiram sem serem violentadas pelo sistema e seus aparatos.

E isso refletiu e ainda reflete muito no direito à saúde para nossa população até hoje. Desde a luta pelo uso do nome social até a inserção dentro do sistema de saúde, dentro do cuidado integral, passando pela a luta pela disseminação do acesso à tratamento e prevenção do HIV/AID, cirurgias de transgenitalização, processos de hormonização de pessoas travestis e transexuais e tantas outras lutas.

No Brasil, a luta pela liberdade sexual, reflexo do Woodstock e da Revolta de Stonewall, teve um embate gigantesco junto ao período de ditadura militar iniciado no Brasil em 1964, ofuscando nossa luta e jogando mais uma vez nossa população para a margem da sociedade que nos considerava aberrações.

Como já falado no vídeo que fizemos para o canal do YouTube do Dentro do Meio, ainda no período de ditadura, o grupo SOMOS, fundado no final dos anos 80, já pautava direitos da nossa população. Mais adiante, vemos a Associação das Travestis e Liberados do RJ (Astral – hoje ANTRA), pautando no governo o atendimento para suas demandas específicas, além também de sua grande atuação nas ações de prevenção da aids.

Com a Reforma Sanitária – Criação do SUS a partir da constituição cidadã em 1988 – vemos que a saúde se torna um direito de todas e todos, porém nossas pautas de saúde só foram realmente colocadas nas políticas públicas mais recentemente com o programa “Brasil sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual” em 2004 e também com o Programa Mais Saúde – Direito de Todo (2008), durante o governo Lula. Ambos os programas trouxeram para a luz nossas pautas específicas, nossos anseios e as defasagens dentro do SUS para com o acesso da nossa população.

A mulher trans que não tem ainda seu nome retificado sendo chamada pelo nome de registro no meio de uma sala de espera afasta até hoje a mesma do cuidado em relação ao seu processo de hormonização, dos efeitos que hormônios fazem no corpo e da possibilidade, caso ela deseje, de realizar acompanhamento com profissionais de saúde mental por conta dos ataques que sua patologização pela sociedade transfóbica.

O homem trans tendo que se submeter a consultas com nome de “saúde da mulher” para realizar seu exame de Papanicolau de rotina para prevenção do câncer de colo de útero também é um entrave no acesso à essa população.

Homens gays e bissexuais que fazem sexo anal e nas práticas realizam cunete são mais vulneráveis à infecções sexualmente transmissíveis não por serem quem são, e sim por falta de informação sobre práticas sexuais com prevenção, uso de lubrificante para diminuir o atrito na mucosa anal e diminuir as chances de aquisição de HIV, ou acesso à vacina da Hepatite A que pode ser fatal em adultos se não tratada.

São pequenas práticas que se tornam muito grandes e trazem à nossa população mais vulnerabilidade por não termos o acesso à saúde, não termos profissionais de saúde qualificados para discutir nossas particularidades e entendê-las para propor a intervenção correta, ou mesmo quebrar preconceitos da população que convive conosco. Não somos mais e, principalmente, não somos menos que ninguém dentro do sistema de saúde.

E orgulhar-se todos os dias traz para nós a força necessária para essa luta diária da construção de um sistema de saúde público, de qualidade, que viabiliza o acesso e o acolhimento dos LGBTQIA+ com suas particularidades, sem que o preconceito sirva de pano de fundo para nossas práticas sexuais ou manifestações de gênero.

Orgulhar-se faz parte da construção de uma comunidade forte, que entende seu poder e luta nos diversos cenários, seja como paciente ou como profissional de saúde, para melhorias e construção de políticas públicas de atendimento e formação voltada às nossas pautas.

Eu tenho orgulho de ser um homem gay cis afeminado, médico, que onde quer que esteja, luta pelos direitos da minha comunidade pensando em todas às letras que me cercam, tentando mostrar aos meus colegas médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionais etc, como eu gostaria de ser atendido pela equipe multiprofissional num momento de vulnerabilidade que é estar doente ou mesmo estar tentando não ficar doente.

Cabe a nós, LGBTQIA+, lutar por esse espaço, derrubar governos que nos colocam como margem, expor atitudes LGBTfóbicas dentro do sistema de saúde e questionar diariamente à nós mesmos nossas condutas e atitudes.

Estamos numa eterna construção, ninguém nasce pronto, se faz com convívio e respeito. Que junho traga para nós força para seguirmos o restante dos meses, sendo quem somos, colocando a cara nas ruas, seja no sol ou na chuva, mas o mais importante: sendo quem somos. Comunidade LGBTQIA+, estamos nessa juntos.

Texto originalmente publicado na coluna de saúde LGBTQIA+ do site “Dentro do Meio”

Breve nota sobre desigualdade atribuída na questão econômica

por Otávio Carvalho

Desde os tempos mais remotos, faz-se presente a questão das desigualdades sociais. Todavia, mesmo diante de inúmeras evoluções, a organização de aldeia global do século XXI mostra que o tema em questão ainda é recrudescente. Nessa perspectiva, convém analisar a raiz histórica, a relação social e a própria organização da sociedade de modo a elucidar possíveis reflexões e viabilidade de redução.

Em primeiro lugar, é pertinente compreender a origem de tal e seu papel histórico. Nesse sentido Jean-Jacques Rousseau, importante filósofo iluminista, analisara que as desigualdades entre os homens, atribuem-se como consequência da noção de propriedade privada. Prova disso é evidenciada na concentração de renda, distribuição espacial e segregação social. Fatores advindos da desigualdade social que permuta a história como peça chave da organização atual da sociedade.

Karl Marx, pensador alemão e principal expoente do método materialista de análise, afirma que “A história de todas as sociedades até nossos dias é a história de lutas de classes.” […] “Nas anteriores épocas da história encontramos quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos estados [ou ordens sociais — Stände], uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, oficiais, servos, e ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo gradações particulares. A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas”. E valemo-nos de tal fundamento a reflexão do que é a desigualdade e como se posterga ainda que já estejamos a todo mastro com os ventos do desenvolvimento.

Compreender a desigualdade numa sociedade é fator chave na história do mundo pautado em luta de classes. Aquela, é manifestada através de algumas formas claras como o racismo, analfabetismo, pobreza extrema e etc. Regras gerais como níveis de serviços básicos, escolaridade, acesso à cultura e outros mais, são indicadores sociais de tal, entretanto, atualmente vale-se majoritariamente do Coeficiente de Gini – baseado na distribuição de renda de um país – para demonstrar os níveis. Reduzir estes abismos sociais tem sido a ordem do dia a nível mundial, tal que, estas não estão sendo reduzidas em uma proporção satisfatória, portanto é afirmado como objetivo entre outros 16 no projeto de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Devido o modo de organização de produção capitalista, sumariamente as desigualdades apresentam-se como pensamentos vigentes e conservadores tanto ao que diz respeito para o meio social mas também ao meio econômico. É necessário que haja, no sistema tal, uma ideologia de inferioridade de uns em relação aos outros, para que ao final do processo, isso permita que através das desigualdades se possa continuar a acumulação capitalista. Como aponta o materialismo histórico-dialético: as contradições entre as classes – antagonismos de interesses.

Reduzir a disparidade social passa pelo processo de superar as mazelas que a questão de classe conduz e, não apenas possibilitar a inclusão das minorias e ou o consumo por parte dos menos favorecidos. Reduzir aqui, a mazela seja do racismo, homofobia ou etc, passa por uma questão de classe pois a “Discriminação racial é encontrada na África, na Ásia, e em todo o mundo. A questão racial é, essencialmente, uma questão de classe.” (“A Questão Racial é uma Questão de Classe”; Mao Tse-tung).

Caminhos infindos ao longo dos tempos mais atuais são pautas discutidas acerca da redução das desigualdades. A Social-democracia, modelo com elementos socialistas mas que mantém o esqueleto republicano e um nível de liberdade econômica resgatada do liberalismo, tem surgido como uma alternativa viável, tal que, países europeus e nórdicos o fazem e garantem melhores níveis de desenvolvimento e menor desigualdade social. Entretanto, na prática elas ainda existem, apenas são mitigadas e maquiadas como bem estar e falsa democracia de modo que os ricos,dominantes, continuam mais ricos e os desfavorecidos, pobres, continuam pobres porém com mais acesso ao consumo, – vide o Brasil, tal que, os direitos são assegurados por lei mas não são cumpridos no mundo material -. Reduzir é importante, porém não apenas reduzir é necessário e sim a superação do estado de exploração e expropriação do homem pelo homem. Aufhebung: negação, conservação e superação.

Não menos importante é necessário reduzir a um exemplo prático o que é a redução das desigualdades sociais – expressas aqui na questão de classe -, pois, popularmente evoca-se que a única saída para as mazelas do mundo é a educação, contudo, esta também passara a ser uma mercadoria, de modo que o meio público Brasileiro e dos países periféricos do eixo central do meio capital, oferece educação universal e gratuita, entretanto a educação privada e acessível apenas àqueles que possuem renda estritamente maior que a população geral, é inegavelmente superior em todas as questões. Numa situação hipotética, se um grupo melhor situado em equivalências monetárias apropria-se de uma renda de 10 e o grupo mais pobre de 1 e, no período seguinte os mais ricos possuem 8 e os mais pobres 3, reduziu-se a desigualdade. Se em outro período conservara-se, respectivamente, 10 e 1, e no próximo período, o grupo melhor situado passa a ter 15 e o mais pobre de 3 — leia-se aqui a maior exploração pelos países ricos frente aos pobres, devido ao grau de elevação que encontra-se o capitalismo, como coloca David Harvey, geógrafo britânico, o capital chega ao nível de extrapolar as barreiras físicas de modo que consiga sustento em outro sítio –, a desigualdade não foi reduzida mesmo que as condições que promovam estas foram reduzidas, haja vista que, o grupo dominante e detentor da ideologia dominante continua o mesmo, apenas usando o acesso ao consumo, que ao final do processo, possibilitara que os excluídos tenham mais possibilidades de desenvolvimento, possuindo maior escolaridade, logo maior renda e melhor inserção no mercado de trabalho; Racismo e outras formas veladas de preconceitos diminuem pois, os atacados agora estão mais ‘humanos’ e etc.

Por fim, em síntese, a redução das desigualdades passa por um longo processo de compreensão histórica totalmente não fixo e não separado das ações que tomam-se hoje que, aponta os motivos pelos quais se ocorre e por fim os motivos pelos quais os superam-se. Alternativas em curto prazo para que haja uma redução satisfatória, estão ligadas para com a melhor distribuição de renda, quiçá uma reforma agrária. Inclui-se ainda no parâmetro social, a questão da educação e consciência coletiva de modo a superar a mazela preconceituosa que, por vezes ainda manifesta-se na sociedade. Investimentos monumentais na questão educacional, como solução prática visando resultados até 2030 possibilitariam um eixo de resultados melhores mesmo que mascarados no todo. É imprescindível que medidas sejam tomadas porém convém elucidar que ações do hoje, provocarão melhores resultados num futuro mais distante, tendo em vista a historicidade do tema e sua conexão com as relações sociais, tal que, como situa Marx, de que não devemos buscar as origens das transformações sociais no seio individual, mas no modo de produção – relações sociais – de cada período. Assim, a viabilidade de soluções encontra no eixo histórico dos interesses, firmados no presente e colhidos no futuro.

REFERÊNCIAS

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2019/12/09/brasil-e-o-7-mais-desigual-do-mundo-melhor-apenas-do-que-africanos.htm. Acesso em junho de 2020.

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/02/20/por-que-brasil-e-o-setimo-pais-mais-desigual-do-mundo.html. Acesso em junho de 2020.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/06/ibge-renda-dos-1percent-mais-ricos-e-337-vezes-a-dos-50percent-mais-pobres.ghtml. Acesso em junho de 2020.

https://www.infoescola.com/filosofia/rousseau-e-a-desigualdade-entre-os-homens/#:~:text=O%20amor%20conjugal%20e%20o%20fraternal%20surgem%20nesse%20momento%2C%20segundo%20Rousseau.&text=Assim%2C%20segundo%20Rousseau%2C%20as%20desigualdades,para%20subjugar%20os%20seus%20semelhantes. Acesso em junho de 2020.

https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/desigualdade-social.htm#:~:text=Segundo%20Marx%2C%20a%20origem%20da,de%20trabalho%2C%20expropriada%20pela%20burguesia. Acesso em junho de 2020.

https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/cap1.html.  Acesso em junho de 2020.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_Gini. Acesso em junho de 2020.

“A Questão Racial é uma Questão de Classe”, Mao Tsetung (https://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-9/mswv9_06.htm?fbclid=IwAR1U-hXCCDIrwnukZyHiSy80ntjm1UKW23ilCIEpUyuzt-3KyOlWr-VSPsY). Acesso em junho de 2020.

A Produção Capitalista do Espaço; HARVEY, David.

https://jacobin.com.br/2019/10/por-que-o-capital-continua-relevante/. Acesso em junho de 2020.

A Pandemia dos Privilegiados

por Jacqueline Vallejo

Não tem como falar do atual momento em que vivemos, em plena pandemia de Covid-19, e não falar de privilégios. As ações sejam governamentais, sejam as orientações da OMS, tem um público específico, os privilegiados. Não é para todos, existe uma camada de pessoas excluídas, invisíveis, que só são lembradas quando seu contingente numérico é necessário para eleger ou sustentar discursos demagogos. Vamos ser claros, na comunidade, no barraco colado no outro, com ruelas estreitas e insalubres, que medem aproximadamente míseros 6 m², com em torno de 6 pessoas, sem emprego, sem internet, sem celular, sem comida, com muita fome, essas pessoas irão usar álcool em gel, máscaras, irão pedir auxílio emergencial?

São dessas pessoas que eu gostaria de falar, pois não estão sendo atendidas nas políticas, nesse governo inoperante para os mais pobres. E são essas, que em sua condição de miserabilidade, vão as ruas diariamente, buscando levar para casa sua sobrevivência, e se sujeitam ao risco, ao fatídico vírus. São essas pessoas que enfrentam diariamente a truculência do braço armado do Estado, ou do poder paralelo, que nesses locais se comportam de forma semelhante. Se não são mortas pelo vírus, seus destinos estão lacrados numa bala perdida, num suposto engano (para eles todos são muito parecidos), numa queda mortal de um prédio chique, e não por coincidência, são corpos negros. Porque o pobre no Brasil tem cor, o bandido no Brasil tem cor, a pessoa em situação de rua no Brasil tem cor.  Mas, não tenho lugar de fala para discursar sobre racismo, e temos muitos autores pretos maravilhosos para ler, como Silvio Almeida que faz uma explicação sensacional e super didática sobre racismo individual, institucional e estrutural, a Vilma Piedade que tem um livro sobre “Dororidade”, lançando esse conceito, e outros pretos espetaculares que devem protagonizar sempre esse tema. Eu fico na minha posição antirracista fazendo coro, e batendo palma para eles.

O que pretendo com o texto é falar da miséria, da falta de programas que visem a manutenção da vida de milhares de pessoas nesse período de pandemia, onde o isolamento social é fundamental, mas não é possível para todos. Essa semana ouvi o relato de uma jovem de comunidade que passou 20 dias em casa, juntamente com a mãe, ambas acometidas do novo coronavírus, que provavelmente se infectaram ao ir no supermercado. Na comunidade não tem delivery. Não tem entrega, simples assim. E ela falou algo que ficou martelando na minha cabeça, quem pode fazer o isolamento vai pra rua por NADA. Sim, os que deveriam estar em seus lares usufruindo do privilégio de ter condições de se proteger e proteger o outro, vão as ruas por NADA, só para sua satisfação, como se não houvesse o amanhã.

Caso essas pessoas tivessem consciência, responsabilidade e o dever de selar pela vida, e ficassem em casa, sairíamos mais rapidamente da quarentena, pois diminuiria a transmissão, e as pessoas que realmente precisam sair não estariam tão expostas ao vírus. Só que o egoísmo, o exacerbado individualismo, o negacionismo, imperam nessa sociedade que tem no cargo maior do país um sujeito que almeja o caos social, que incentiva o comportamento contrário as recomendações sanitárias, que precisou receber uma intimação para fazer uso da máscara, sujeito a pagamento de multa caso cometer infração. É inconcebível imaginar que milhares de pessoas estão morrendo por conta da irresponsabilidade, da negligência, falta de interesse de gerir os recursos públicos em favor dos necessitados.

Antes da pandemia, esse governo genocida já havia mostrado seu desprezo pelo assistencialismo, através de uma medida acabou com o trabalho dos assistentes sociais dentro dos postos do INSS, prejudicando principalmente a população pobre e analfabeta. E os CRAS e CREAS (Centro de Referência de Assistência Social e Centro de Referência Especializado de Assistência Social) que nesse momento deveriam estar dentro das comunidades fazendo novos cadastramentos e assumindo as ações que foram deixadas para a sociedade civil? Não tem quadro de servidores para isso, estão precarizados, não recebem incentivos para funcionar dignamente. Nem a primeira dama, que normalmente tem a tradição de assumir o assistencialismo, é inapta, inoperante, inexistente. Esse governo é míope, não enxerga, e nem quer enxergar seu povo.

Provavelmente essa pandemia ficará como uma grande lição de como não governar um país, e como alerta para novas eleições.

Os 537 Dias de Bolsonaro

por Artemis Zamis

Hoje estamos completando 537 dias do governo do presidente Jair Bolsonaro, em meio a assustadora marca de mais de 50 mil mortos e mais de um milhão de casos confirmados pelo novo Coronavírus, nessa que é a pandemia mais avassaladora desde a gripe espanhola de 1918, período em que morreram em torno de 50 milhões de pessoas no mundo, com cerca de ¼ da população mundial infectada.

O governo assiste absorto, inerte e atabalhoado, o implacável avanço da Covid-19 em todo o país. É o único país do mundo que em meio a enorme crise de saúde que nos atinge, não tem um ministro específico para cuidar e tratar de maneira responsável esse que é o mais grave de todos os problemas que ora nos atinge. Não se vê nem um movimento do governo no sentido de tentar conter o avanço da letalidade da pandemia, nem sequer estudos e atitudes que possam minimizar o sofrimento por que passam grande parte da nossa população. O auxilio emergencial de R$ 600,00 que o Congresso aprovou a revelia do governo que queria na verdade que fosse de R$ 200,00, não chega em todos os que precisam e aos poucos que chegam, vem sempre carregados de toda dificuldade de saque possível, demonstrando todo o despreparo e todo o desprezo que o governo tem por seu povo. Por que não mais é dado o devido valor a vida? Por que abandonaram os mais pobres? Como imaginam uma economia sem trabalhadores?

O que assusta de fato é que são 537 dias de escândalos na família e no governo como um todo. Assusta a ministra da pasta da mulher, da família e dos direitos humanos pedir a prisão de governadores, assusta um ministro da educação pedir a prisão de ministros do STF, ser alvo de inquéritos, assusta um ministro do Meio Ambiente se valer da pandemia pra deixar que a boiada do desmatamento passe, assusta todos os dias ver o presidente inadvertidamente atacar um ou outro poder da República, assusta saber que é por tudo isso que não lhe sobra tempo para pelo menos aprender a governar.

São 537 dias de tormenta e desesperança. Dias sombrios onde prepondera apenas ameaças a desafetos as instituições. O Brasil está sob o domínio do fanatismo ideológico. Esse fanatismo fez desaparecer a dúvida que é um fundamento crucial a construção de ideias e deu lugar as absurdas certezas, que é na verdade o fundamento principal do fanatismo ideológico. O negacionismo advindo desse ideologismo é a consequência do agravamento desse desastre na maneira de tratar a pandemia.

São 537 dias em que se assiste uma verdadeira pregação do absurdo como forma de manipular a população, com uma imitação clara do que acontece nos EEUU, Filipinas, Turquia e Hungria com seus governos projetados para chocar. A vida deixou de ser um bem maior para ser apenas uma peça nesse xadrez do horror.  

O Brasil precisa mudar seu rumo e isso é urgente. Nenhum país pode se inserir economicamente no mundo moderno, com um governo submerso em lama de escândalos e ideologias obscuras e sem nexo algum.            

O Brasil e seu povo precisa voltar a sua normalidade e é imperativo que nos movimentemos para cobrarmos medidas certas, concretas e eficazes para a nossa nova normalidade pós pandemia.

A Democracia Clama por Cuidados

por Artemis Zamis

O período de 1964 a 1985 foi sem dúvida um dos mais tristes, violentos e terríveis da nossa história. Desde a chegada do Gen Castelo Branco até o Gen João Batista Figueiredo, foram anos a fio de perseguição de desafetos,  censura a imprensa, cassação de mandatos políticos, fechamento do Congresso Nacional, focos de luta armada, tortura, milhares de mortos e desaparecidos, corrupção não investigada, aumento da desigualdade, endividamento do país e inflação sem controle. Quem viveu a tortura desse período carrega na alma e no corpo para sempre, as marcas que diariamente lhes rasgam a memória de tão insuportáveis momentos.

A ditadura na concepção moderna, segundo Norberto Bobbio, em seu livro Dicionário de Política, é um regime não-democrático moderno em que há uma acentuada concentração do poder e a transmissão da autoridade politica acontece de cima para baixo. O poder da ditadura tende a ser ilimitado, já que não é contido pela lei, pois o ditador sempre se coloca acima dela. Embora aparentemente sejam mantidas algumas normas jurídicas, quase não tem eficácia real nenhuma, visto que o ditador deliberadamente as ignora.

Desde 1985 com o fim da ditadura, o Brasil luta sem trégua, uma árdua batalha para manter sua tão ainda jovem democracia consolidada. Em 1988 o congresso nacional promulgou a nova carta magna onde o cidadão brasileiro foi finalmente alcançado, lhes sendo dado direitos bem definidos, deveres e garantias constitucionais devidamente asseguradas pela justiça em caso de qualquer violação. Foi o maior ganho para o povo e uma necessidade que a muito se anelava na redemocratização do país e no pós ditadura. São 32 anos de nossa Constituição cidadã onde conquistamos liberdade plena de pensamento e de manifestação. Direitos individuais que todos sem exceção tem assegurado.

Lamentável é sair às ruas hoje e nos depararmos com pessoas que defendem a volta do regime militar, o fechamento do congresso e do Supremo Tribunal Federal. Lamentável e absurdamente inacreditável é saber que tudo isso é incentivado e compactuado pelo presidente da República do Brasil, que foi eleito democraticamente por 57 milhões de votos. É lamentável nos depararmos todos os dias com uma declaração do presidente que sempre atenta contra a constituição e contra os poderes da República.

O Brasil e o seu povo anseiam por paz, por liberdade e por união de seu povo. O Brasil e seu povo não quer a luta, seja ela armada ou não. A única luta que queremos é a que o governo obrigatoriamente teria que travar contra essa terrível pandemia que assola as pessoas, e que já nos colocou em segundo lugar no planeta em números de mortos. Precisamos que a vida seja enfim colocada em pauta.

Hoje, temos no poder um presidente que tenta imitar os grandes ditadores da história, por admiração e até mesmo por idolatria, levando junto centenas de apoiadores que por ignorância, defendem o absurdo e a bizarrice.

Esta semana em uma live de rede social, o presidente incitou categoricamente seus apoiadores a invadirem hospitais, que tratam pacientes com a covid-19, para filmarem o seu interior na busca de provas se haviam leitos vazios. Não demorou para que fosse atendido. Um grupo de seis pessoas ousaram invadir o hospital Ronaldo Gazolla no Rio de Janeiro e com a truculência que já lhes é peculiar, hostilizaram médicos, enfermeiros e danificaram computadores e portas. Além do trauma causado aos pacientes e seus familiares que nem na dor puderam ter sua privacidade respeitada.

Mas, como citei acima, um ditador não observa leis. Antes as tem como mero subterfúgio para cometer absurdos, promover o medo e a consequente submissão de um povo.

A democracia clama por cuidados.

Não podemos abandona-la agora.

Ditadura nunca mais.

O Amanhã que nos Espera

por Artemis Zamis

É fato que nosso mundo globalizado foi pego de surpresa pela súbita chegada do novo coronavírus, e com isso uma catástrofe econômica mundial se avizinha e não será ela exclusiva do Brasil, nem de algum outro país em especial. Será planetária e exigirá dos governos a implantação de uma nova ordem mundial que atenda ricos e pobres, afetados ou não pela pandemia. Um novo normal chegará e nem sabemos direito como ele será de fato. Como será nosso consumo? Quais serão nossas novas necessidades e nossos novos desejos?

Bom, o que se sabe até agora de real mesmo é o que já vivemos com a recessão que chega com rapidez e força em nosso país. A atividade econômica tem seu pior momento e os números, da já combalida economia, já são os piores desde 1901. Segundo dados divulgados pelo IBGE, no primeiro trimestre de 2020 já encolhemos 1,5% em relação ao ano de 2019, efeito causado principalmente pela retração de 1,6% nos serviços, um setor que representa 74% do PIB. O setor industrial também caiu 1,4% e só a agropecuária teve o pífio resultado de 0,6% positivo. Não fomos diferentes dos outros países afetados pela pandemia, pois é razoável imaginar que com o fechamento dos estabelecimentos, as famílias confinadas fizeram com que setores como bens duráveis, veículos, vestuários, alimentação, academias, sofressem bastante com o necessário isolamento social.

O pior, contudo, são as previsões do mercado para este ano, que segundo o último boletim Focus divulgado pelo Banco Central, prevê uma queda de 5,89% do PIB esse ano, previsão pior que a do Ministério da Economia que estima em 4,7% a perda para este ano. Bom lembrar que as previsões do ministro da economia Paulo Guedes, em março, previa um crescimento de 1% no pior cenário do vírus. Logo em seguida, em torno do dia 20 do mesmo mês, baixou sua previsão para 0,2% de crescimento da economia, já dando leves sinais que poderíamos enfrentar uma recessão por conta da pandemia. Em abril, com o país já contando seus mortos pelo covid-19 na casa dos milhares e com medidas de isolamento já decretadas em vários estados, anuncia em uma reunião com senadores que o país teria uma queda de 4% do PIB em 2020.

O mundo não contava com a covid-19. E alguns países, inclusive o Brasil, subestimaram a doença e suas consequências. É fato que nenhum país fica de prontidão esperando que uma pandemia vai eclodir em algum lugar, com dia e hora marcada. Ela veio, e veio forte, pegando todos de surpresa. Está aí instalada e vemos as piores previsões para o pós pandemia. Segundo estudos feitos por especialistas da King’s College London no Reino Unido e da Australian National University (ANU), a crise econômica pode ser maior que a crise da saúde, e estimam um aumento de 400 a 600 milhões de pessoas em situação de pobreza.

É preocupante olhar esse quadro desolador. Mais desolador ainda, é não vislumbrarmos uma equipe econômica capaz de apontar caminhos consistentes, que promova uma abertura de redes de segurança social de maneira ampla e que atenda a todos sem exceção. A pandemia vai passar, infelizmente muitas vidas ainda serão perdidas por descontrole, por descaso, por incompetência e por desorganização.

Mas vai passar.

O futuro incerto nos faz olhar para o hoje, e no hoje, o que podemos fazer sem medir esforços é nos organizarmos para efetivas cobranças de mudanças no cenário político. As eleições municipais que se aproximam será uma grande oportunidade para que se mude radicalmente esse quadro pernicioso e o mais importante é que isso está em nossas mãos.

Pense, pesquise, leia.