O ADIAMENTO DO DIREITO

por Otávio Carvalho

Desde os primórdios de janeiro, via internet, acompanhava-se a rápida difusão do vírus, ou seja, somado a propagação quase sem controle e uma onda crescente de negacionismo para com a ciência mundial, ainda além, acrescido de uma agenda federal de descrença no poder do COVID-19, tornou-se pertinente que a batalha contra este, no Brasil, seria extensa e cruel, devido uma falta de ações para preparar o sistema de saúde e sobretudo, difundir medidas de segurança básica, portanto a soma do contexto histórico brasileiro conjuntamente com a cultura popular de não respeitar normas e a promoção dessa conduta conspiracionista, de forma terrível, evidenciava que o embate contra o coronavírus viria a ser longo e de duas faces, combatendo o vírus e a descrença de que o único ‘remédio’ – por hora – seria o isolamento social.

Manter o ENEM na data prevista, é um descaso genocida contra a educação brasileira, se faz necessário ser totalmente contra o não adiamento, tal que, estamos todos imersos em um período de provações e dificuldades que atingem expressivamente toda população mundial, portanto ser a favor do adiamento deste, surge como um assunto extremamente polêmico. O Exame Nacional do Ensino Médio, permutando entre diversos períodos, firmou-se como um importante instrumento de consumo – ao contrário do senso comum que afirma bravamente que permite o acesso, fato que não ocorre pois questões variadas não foram mudadas e a estrutura social desigual, ainda que mitigada, continua no mesmo norte – as universidades públicas, através do próprio ENEM e também com outros mecanismos como SISU, ProUni e FIES.

Manter o calendário proposto para o ENEM – seria um problema enormemente incontrolável no presente governo, visto que, a redução das desigualdades sociais não é presente na agenda educacional atual, tal qual falas do ministro da educação que afirmara que o ENEM não serve para corrigir tais -, o adiamento se faz a única alternativa que, minimamente diminua o absurdo grau de disparidade social entre rede privada x rede pública, classe carente x classe rica, uma vez que com a suspensão das aulas, a grade curricular será afetada bruscamente, não será possível o êxito em cumpri-la por completo e isso prejudica não um grupo, mas todos os que se propuserem a realizar a prova, ainda que tenha pontos positivos e negativos para os dois lados da “disputa”, pois, como alguns ainda insistem em reproduzir o discurso de exclusão de que isso beneficiaria, tornando talvez mais fácil a prova e adequada ao calendário, isso na prática não acontece e ainda surge o discurso que propaga que as cotas servem para isso, pois bem, há muitas coisas que não falam na escola, e uma delas é que cota não é esmola (Bia Ferreira, canção Cota não é esmola).

Nesse período que estamos todos sendo surpreendidos pela pandemia do COVID-19, estudar tem sido quiçá a tarefa mais trabalhosa aos estudantes do mundo e sobretudo do Brasil. Há os que estudam normalmente, abstendo-se do mais puro e pequeno senso de humanidade e compaixão, em estado de êxtase, não sofrendo nenhuma influência com todas as notícias terríveis diárias e, tirando proveito da situação excludente para com seus semelhantes de classes inferiores, os que possuem condições e exercem alteridade, sofrendo com o cenário cruel de mortes e contaminados que não conseguem manter uma saúde mental necessária para o imperativo estudar e por fim, aqueles que se quer acesso à internet podem usufruir, e é sobre estes que se trata a polêmica, pois a dificuldade do estudo nesse momento é seletiva, de forma que limita pela classe que o sujeito pertence e também ao grau de preparo por parte do aluno à conseguir foco e disciplina direcionadas para o estudo, de modo a cumprir as atividades propostas via EAD – que majoritariamente é a forma como a classe estudantil agora usa para o ensino – e também, da necessidade dos professores terem de se reinventar da noite para o dia, tarefa muito árdua, logo, preparar-se é quase impossível dessa forma, pois a necessidade do calor da sala de aula torna a aprendizagem muito mais lúdica e proveitosa e não menos importante, quanto mais tempo sem esse meio permanecermos, até que seja humanamente seguro e sem absolutamente nenhum risco à população, o ensino será afetado de maneira nunca vista. Relatos do país inteiro, evidenciam que mais do que nunca as desigualdades socioeducacionais foram tão fortes e agravadas, surgidas com a agenda neoliberal pseudo assistencialista de mercantilização de direitos básicos como a educação – que é garantida pela constituição brasileira, como também é obrigação do Estado provê-la, ou seja, torna pertinente as palavras do querido, Cazuza, que nos faz refletir sobre a quem interessa que a prova seja mantida ou adiada, porque mantê-la é decretar partido para o lado contrário da promoção do bem estar: Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim; qual é o teu negócio, o nome do teu sócio?

O adiamento do ENEM, torna-se então a única maneira plausível de ação. Inertes no sistema de produção capitalista, os milhares de jovens mas sobretudo seres HUMANOS, sonham com a oportunidade de mudar de vida e talvez o ENEM a única, já que, têm sua liberdade cruelmente condicionada às condições econômicas, ou seja, são aquilo que possuem. Desse modo, não adiar o que é o último sopro de esperança para o nosso país, que possibilitaria que mais artistas, engenheiros, médicos, professores e todas as demais carreiras nascessem, mas sobretudo que a população brasileira tivesse a oportunidade de tornar-se humana de fato, tendo garantido o seu direito de estudar. O contrário disso seria colocar uma pá de concreto em cima da humanidade em nosso país e decretar descaradamente que o lucro é mais importante que a vida e ainda, que a educação não serve de nada a não ser formar alienados e analfabetos funcionais. Portanto é obrigação de todo estudante e de todo brasileiro lutar pela manutenção do Exame Nacional do Ensino Médio e pelo futuro da educação, eliminando as distinções bárbaras entre classes sociais antagônicas, fundando um futuro social melhor que só é possível se pequenas medidas como o adiamento do ENEM 2020, tornarem-se realidade, a ponto de incluir e promover o único meio tal qual a nossa população tão aguerrida tem para se defender de pandemias – a educação de qualidade -, assim sendo, promovendo o sentir no mais profundo de cada um, qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *