UM OLHAR DE ESPERANÇA

por Artemis Zamis

Da janela do quarto agora, posso ver passar alguns transeuntes, uns com mascaras, outros sem, olhares cabisbaixos, passos curtos, braços que nem se mexem, parecem perdidos, e alguns deles olham apenas o horizonte, um pouco escuro pelo cair da tarde e com o céu em nuvens opacas prometendo talvez uma chuva que as vezes nunca vem. Mas continuam passando. Uns com sacolas de supermercado não muito cheias, outros com algumas frutas e passam. Apenas um jovem passa em uma bicicleta já meio surrada e pedala rumo a algum lugar que nem ele mesmo talvez saiba. Um outro passeia com seu skate. Escurece um pouco mais. Aquele movimento intenso de pessoas vindo de seus trabalhos, outros descendo dos ônibus exaustos de seus afazeres do dia a dia, apressados para chegarem em suas casas e tomarem seus banhos,  outros com seus carros vindo de festas, bares, shows, trazendo consigo ainda cheiro do último gole de cerveja, não existe mais. Restou apenas a rua agora. Acenderam as luzes dos postes de concreto e vejo apenas a penumbra. Um vento leve traz um friozinho próprio das noites de outono, e ouço apenas o farfalhar de folhas de algumas poucas árvores que sobraram na rua larga, de calçadas também largas e bem acabadas, com caprichos peculiares de cada morador.

A pandemia mudou tudo. Mudou a minha rua, mudou o meu bairro, a cidade, o país, o mundo. Mudou a vida das pessoas, mudou as perspectivas, mudaram-se os sonhos. Foi tudo rápido como um flash, dormimos em um país já conturbado pelas leviandades de um governo tosco e acordamos em outro mais conturbado ainda. Nos separamos de nossos filhos, pais, irmãos, amigos queridos e nos isolamos para tentarmos sobreviver e nem é ainda certo que isso acontecerá. A cada noticia surgida na TV sobre a pandemia, me deixa um pouco mais distante do futuro e mais perto das incertezas.

Assim como eu, todos nós queremos em breve olhar de nossas janelas e reviver os bons tempos das crianças jogando bola na rua, as pessoas andando apressadas rumo aos seus compromissos, rodas de bate-papo, o churrasquinho da esquina lotado, o cheiro de café da padaria e até ouvir as sirenes das fábricas. Queremos um novo amanhecer, onde renovados de espírito e força, possamos nos juntar e reconstruir nossas estruturas, nossos esteios familiares, nossas casas.

Desta janela, ao olhar o horizonte, só vejo o escuro da noite se confundindo com o negro do céu onde apenas 3 estrelas teimam em cintilar. A brisa fria cessou e agora só há o tempo, estático e perturbador. Nenhuma folha se mexe, nada se movimenta. Volto para dentro de mim e penso nos que neste momento lutam pela vida, pelos que perderam seus entes queridos, pelos que ainda vão perde-los, pelos que lutam com a ansiedade, os que no seu isolamento estão sós, longe de quem gostam.

Mas penso também que fomos feitos e dotados de uma força incomensurável, que nossas vidas sempre foram feitas de lutas e glórias. Que sempre renascemos das adversidades. E vai ser assim de novo. Uma nova manhã se aproxima, juntaremos nossos pedaços caídos pelo chão da sala, do quarto e nos reergueremos melhores, mais sábios, mais amigos, mais solidários, mais gente. Nessa manhã, quero estar nesta mesma janela e assistir sorridente e com um suspiro forte, o revoar dos pássaros, o barulho ensurdecedor da cidade, a correria dos transeuntes, a buzina dos carros, a vida passeando de novo. Acreditemos nessa manhã.

Olhe a janela.

23 comentários em “UM OLHAR DE ESPERANÇA”

  1. Meu caro amigo, Artemis
    Eu sei que ainda precisamos de mais um tempo.
    E vou esperar com paciência.
    Uma saudade da garotada subindo minha rua a caminho das escolas.
    Saudades dos netos, da família, dos transeuntes nas manhãs.
    Mas voltarão!

    1. Ártemis também acredito que haverá mudanças boas, ainda não sei se é a Terra respirando um pouco do frenesi dos homens. Não sei se a fé será posta a prova e muitos ladrões de esperança serão desmascarados. Vamos esperar, esperançar!

    2. Muito bom Artemis, e que tempos tristes, mas que a esperança nos renove, e nos devolva a alegria que um dia já tivemos, sem sabermos, que tempos sombrios estavam chegando.

    3. Belíssima crônica que nos traz o sopro da esperança num momento em que não sabemos como vamos estar daqui há uma hora. Não basta a grave epidemia, temos também um presidente que age para aumentar a propagação da doença e incita ao comportamento de risco.

      1. Obrigado Claudia
        Que as pessoas tenham mais responsabilidade e consciência nas escolhas e que saibam q essas escolhas afetam todo o conjunto e não só uma parte dele.

  2. Claríssima a sua visão, Artemis. Penso eu, que , neste momento particular, em todo o planeta, a única saída é para dentro, quem sabe o Multiverso, está dando mais esta oportunidade ao ser humano de “Conhecer-se a si mesmo, para entender o outro? As vezes uma “Presença insuportável de nós mesmos”, nos forçam a ver as coisas do ponto de vista alheio, parece um paradoxo, mas não é. Enquanto alguns reclamam de seus isolamentos em suas mansões de 1000m² com 100 empregados os servindo, milhões e milhões se expremem e se matam nos cubículos miseráveis da vida. A Empatia é um exercício.

  3. Abro minha janela e vejo janelas abertas e portas fechadas.
    Vejo pessoas fechadas em seu próprio mundinho com medo do futuro incerto.
    Senhoras antes sorridentes e receptivas antes sentadas numa varanda em roda de chimarrão ,jogando conversa fora,falando das que estavam ausentes com semblantes pesados.
    Que saudades do” BOM DIA ANA” Me dá notícias de fulana,de beltrana” ,já nasceu o bebê da cicrana?
    Saudades quando minha maior preocupação era não tremer a mão ao fazer um acesso numa veia de um recém nascido.
    Saudades de chegar em casa as 7 da manhã e ver minha mãe esperando com café e pão recém saido do forno após um plantão no berçário.

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