UM ESTADO QUASE LAICO E A PANDEMIA

por Artemis Zamis

Desde que este governo foi instalado em 1º de janeiro de 2019, que o Brasil vem sendo varrido por uma ideologia ultra conservadora neopentecostal, que em certos momentos, administradas em doses homeopáticas, em outros em dosagens acima do limite, vem causando distúrbios, polarizações cada vez maiores e conflitos ideológicos no nosso tão sonhado estado laico. Os ditos neopentecostais acharam em Jair Bolsonaro a válvula que faltava para que seus interesses fossem atendidos e por isso lhes deram, e ainda dão, apoio incondicional, sem até mesmo se importarem com suas bandeiras nada democráticas, tais como a misoginia, o racismo, a homofobia, a violência, o espirito de matador, entre outras qualificações nada relacionadas com o verdadeiro espírito cristão. Mas, e quem está mesmo preocupado com o verdadeiro espírito cristão? Quem acompanha as declarações de pastores neopentecostais nas redes sociais e do presidente, vai entender que o que menos importa hoje é o cristianismo em si. Nada se fala da doutrina cristã e nada se fala da figura de Jesus que pregava a humildade e a ajuda aos mais necessitados. Vivemos um estado “burrocrático” no país. Quando o presidente vai as redes sociais e a TV e declara que o estado é laico mas ele é terrivelmente cristão, demonstra sua total ignorância do assunto e prega na verdade uma vontade de implantar no país uma utópica teocracia ultra conservadora que ele mesmo sabe que nunca irá acontecer, mas que o faz por ser um fanfarrão assumido.

O fato é que os neopentecostais não estão muito para a brincadeira. Ao contrário, estão levando muito a sério a posição que nunca alcançaram na história da república e não estão dispostos em hipótese alguma de abdicar ou até mesmo de sequer abandonarem por um instante as posições que assumiram no establishment. Sua bancada na câmara e no congresso é atuante e agressiva no que diz respeito a defender os seus interesses.

Em todo esse imbróglio governamental, a triste constatação é que eles não trouxeram nenhum programa de governo de qualquer espécie, para qualquer setor, a não ser os de interesse puramente corporativos como fim de impostos, ideologia de gênero, proibição ao aborto, entre outras questões morais. Mas seu protagonismo está patente e latente a cada dia que passa e por onde passam. Nos corredores sombrios do planalto, circulam em quantidade tamanha que ofuscam os que de fato praticam política. A história nos mostra que onde existiu, ou existe, o fundamentalismo religioso, sempre está junto dele o retrocesso, atrocidades e autoritarismo.

A constituição nos coloca como um estado laico e assim deve ser. Toda e qualquer religião deve ser respeitada independente de sua doutrina ou de seus dogmas, exceto os charlatões que precisam ser denunciados, processados e julgados na forma da lei. O que não se pode admitir é que usurpem o poder da república e de lá determinem o que nós o povo, que tem suas várias religiões e crenças ou até mesmo nenhuma, a aceitarem suas doutrinas e regras fundamentalistas.

A pandemia que o mundo enfrenta, nos afeta de forma severa e nem estamos ainda no seu pico total que deve acontecer neste mês de abril e maio. O governo alheio as recomendações da OMS e de autoridades de saúde do seu próprio governo, ignora as recomendações expressas de isolamento social e como temos visto em suas andanças, promove aglomerações e debocha da pandemia com mensagens de efeito. Como se não bastasse, declarou em uma entrevista ao apoiador Ratinho que as igrejas são serviços essenciais e que deveriam continuar com seus cultos sem restrições. Com isso ele atende as várias reclamações de lideres neopentecostais que denominam a pandemia como um vírus maligno. Como vemos, a religião já está na república, agora mais influente e mais atuante, inclusive pautando nossos costumes e nosso cotidiano.

Quando há a inconstitucional mistura entre igreja e estado laico, podem ocorrer espetáculos grotescos e constrangedores como o jejum nacional endossado pelo presidente nesta semana, que fracassou como já era esperado. Confunde-se o Brasil com o Israel bíblico. Não somos esse Israel bíblico, nem adeptos de um único pensamento teológico. Somos livres para pensar, agir e viver no regime democrático que elegemos.

Devemos exigir do governo um tratamento sério, técnico e responsável da maior pandemia deste século. Não é hora de conjecturas, ideologias, religiosidades, ofensas, picuinhas internas. Nosso inimigo agora é o vírus e é ele que devemos combater. Lideres religiosos tem toda liberdade de opinarem e professarem suas religiões, mas sem se apoderarem e se aboletarem no estado para pautar comportamentos e conceitos morais de quem quer que seja.

Nem nós, nem o mundo será o mesmo depois dessa pandemia.  

É prudente que pensemos desde já o que podemos querer do amanhã.

2 comentários em “UM ESTADO QUASE LAICO E A PANDEMIA”

  1. Parabéns, Ártemis. Mais uma vez com sua clareza de sempre!
    Somos resistência.
    Juntos em quarentena pra combater a pandemia.

  2. Realmente estamos vivendo as consequências do voto em representantes religiosos. Se empoderaram demais , com o aval dos velhos políticos.
    Como disse Marx, “a religião é o ópio do povo” , mais uma vez a história mostra que ele estava certo. Ótimo artigo, companheiro. @LeiaOrganaPT

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