Arquivo mensal abril 2020

porFBD

OS MODERNOS SENHORES DE ENGENHO

por Artemis Zamis

Era junho de 1720 quando o Bispo Monsenhor Belsunce, atônito, percorre as ruas de Marselha na França para confortar pessoas que morriam nas ruas vitimas da peste negra. O chefe de policia, Cavaleiro Roze, se viu obrigado a libertar mais de 200 presos, para que pudessem ajuda-lo a incinerar milhares de corpos que se acumulavam nas ruas. Eram mais de mil mortos por dia. Em dois meses, Marselha viria a perder metade de seus 100 mil habitantes vitimas da peste que assolou a cidade naquele ano. Tanto o Monsenhor Belsunce, como o chefe de policia Roze, não imaginavam que toda aquela mortandade de seus compatriotas tinha seu começo no navio Grand Saint-Antoine que chegara ao porto de Marselha, no dia 25 de maio daquele ano, carregado de valiosos tecidos e fardos de algodão totalmente contaminados com o bacilo de Yersin que seria o causador da peste de Marselha, ou segunda epidemia da peste negra na França.

A regra de que o navio, primeiro, deveria ficar em quarentena antes de ancorar, não foi cumprida em face da forte pressão dos comerciantes locais, que no afã de seus valiosos lucros, armaram um complô com os proprietários da embarcação para que evitassem a comprometedora quarentena e promovessem a ancoragem e o imediato desembarque da carga, com o único intuito de proteger seus ganhos e evitar perdas na economia local. Além dos tecidos contaminados, 10 tripulantes já estavam com os sintomas e foram eles os responsáveis pela proliferação mais imediata na população.

Hoje, em abril de 2020, o Brasil e o mundo passam pela maior  pandemia já ocorrida no planeta que é a do Covid-19, que já matou mais de 214 mil pessoas no mundo, com quase 4 milhões contaminados. O Brasil já passa a China em número de mortos, chegando ao total de mais de 5 mil óbitos em todo o país nos últimos 42 dias. Foram 474 óbitos só nas ultimas 24 horas, até o fechamento desse texto. Corpos estão sendo enterrados em Manaus-AM empilhados, e algumas famílias estão sendo obrigadas a enterrarem seus parentes com as próprias mãos, por falta de coveiros disponíveis.

Não tivemos nenhum Gran Saint-Antoine como emissário desta pandemia. Não temos nenhum Bispo Belsunce e o chefe de polícia Roze não está mais aqui pra ajudar a enterrar corpos que se acumulam em todo os lugares do país. O que temos aqui, como em Marselha, são os mesmo cruéis e gananciosos empresários que esta semana promoveram uma das mais deprimentes e grotescas cenas na Paraíba, onde obrigaram seus funcionários a permanecerem de joelhos em frente as suas lojas para pedirem a reabertura do comércio e o fim do isolamento social, com o mesmo intuito e as mesmas razões daqueles de 1720. É o nefasto capital e seus modernos senhores de engenho montando no proletariado submisso, em troca de migalhas de salários. Estão respaldados pelo governo neofascista que se instalou no país e que apoia e incentiva o fim do isolamento social, indo de encontro a todas as recomendações da OMS e autoridades de saúde.

O presidente do país trata a pandemia com o mais infame e cruel desdém, que só vimos nos livros de histórias, sobre os mais sanguinários governantes que já passaram por entre nós humanos. No auge da pandemia, com hospitais sem leitos, médicos tendo que escolher quem vive e quem morre por falta de respiradores, o presidente prefere ir a um stand de tiros treinar. Seus últimos dias tem sido ocupado por criar confusões, todo tipo de atrito, denúncias de ex-ministros, nomeações suspeitas, divulgações de mentiras, declarações estapafúrdias. A incompetência e o despreparo não só dele, mas de toda a sua equipe, é assustadora e vergonhosa. Não podemos deixar de creditar todo esse insucesso a todo esse governo que mais parece uma orquestra de instrumentos desafinados. Contribuem, e muito, para que nossa estatística pandêmica seja uma das maiores do mundo. A vida não tem valor algum. Apenas o lucro importa.

Bolsonaro precisa ser retirado de seu cargo. Não importa qual o caminho agora. Importa apenas que seja retirado. Não é nada razoável, como muitos pensam, que tenhamos que largar o presidente cometendo crimes todos os dias para nos dedicarmos a pandemia, e só depois cuidar de tirá-lo. O Brasil sem Bolsonaro sai da crise econômica e da pandemia muito mais rápido que com ele. Só o povo unido e ninguém mais, somos capazes de mudar. Fora Bolsonaro e todos esses modernos Senhores de engenho, que embora não tenham sido contaminados pelo vírus impregnados nos tecidos e nos fardos de algodão de Marselha, foram contaminados pela insensatez e pela ganancia capitalista vergonhosa e nefasta dos dias atuais, promovendo e ajudando a dizimar seus concidadãos.

“Não sois máquinas! Homens é que sois!”
Charles Chaplin

Pense nisso e…

Fique em casa.

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UM OLHAR DE ESPERANÇA

por Artemis Zamis

Da janela do quarto agora, posso ver passar alguns transeuntes, uns com mascaras, outros sem, olhares cabisbaixos, passos curtos, braços que nem se mexem, parecem perdidos, e alguns deles olham apenas o horizonte, um pouco escuro pelo cair da tarde e com o céu em nuvens opacas prometendo talvez uma chuva que as vezes nunca vem. Mas continuam passando. Uns com sacolas de supermercado não muito cheias, outros com algumas frutas e passam. Apenas um jovem passa em uma bicicleta já meio surrada e pedala rumo a algum lugar que nem ele mesmo talvez saiba. Um outro passeia com seu skate. Escurece um pouco mais. Aquele movimento intenso de pessoas vindo de seus trabalhos, outros descendo dos ônibus exaustos de seus afazeres do dia a dia, apressados para chegarem em suas casas e tomarem seus banhos,  outros com seus carros vindo de festas, bares, shows, trazendo consigo ainda cheiro do último gole de cerveja, não existe mais. Restou apenas a rua agora. Acenderam as luzes dos postes de concreto e vejo apenas a penumbra. Um vento leve traz um friozinho próprio das noites de outono, e ouço apenas o farfalhar de folhas de algumas poucas árvores que sobraram na rua larga, de calçadas também largas e bem acabadas, com caprichos peculiares de cada morador.

A pandemia mudou tudo. Mudou a minha rua, mudou o meu bairro, a cidade, o país, o mundo. Mudou a vida das pessoas, mudou as perspectivas, mudaram-se os sonhos. Foi tudo rápido como um flash, dormimos em um país já conturbado pelas leviandades de um governo tosco e acordamos em outro mais conturbado ainda. Nos separamos de nossos filhos, pais, irmãos, amigos queridos e nos isolamos para tentarmos sobreviver e nem é ainda certo que isso acontecerá. A cada noticia surgida na TV sobre a pandemia, me deixa um pouco mais distante do futuro e mais perto das incertezas.

Assim como eu, todos nós queremos em breve olhar de nossas janelas e reviver os bons tempos das crianças jogando bola na rua, as pessoas andando apressadas rumo aos seus compromissos, rodas de bate-papo, o churrasquinho da esquina lotado, o cheiro de café da padaria e até ouvir as sirenes das fábricas. Queremos um novo amanhecer, onde renovados de espírito e força, possamos nos juntar e reconstruir nossas estruturas, nossos esteios familiares, nossas casas.

Desta janela, ao olhar o horizonte, só vejo o escuro da noite se confundindo com o negro do céu onde apenas 3 estrelas teimam em cintilar. A brisa fria cessou e agora só há o tempo, estático e perturbador. Nenhuma folha se mexe, nada se movimenta. Volto para dentro de mim e penso nos que neste momento lutam pela vida, pelos que perderam seus entes queridos, pelos que ainda vão perde-los, pelos que lutam com a ansiedade, os que no seu isolamento estão sós, longe de quem gostam.

Mas penso também que fomos feitos e dotados de uma força incomensurável, que nossas vidas sempre foram feitas de lutas e glórias. Que sempre renascemos das adversidades. E vai ser assim de novo. Uma nova manhã se aproxima, juntaremos nossos pedaços caídos pelo chão da sala, do quarto e nos reergueremos melhores, mais sábios, mais amigos, mais solidários, mais gente. Nessa manhã, quero estar nesta mesma janela e assistir sorridente e com um suspiro forte, o revoar dos pássaros, o barulho ensurdecedor da cidade, a correria dos transeuntes, a buzina dos carros, a vida passeando de novo. Acreditemos nessa manhã.

Olhe a janela.

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O que você precisa saber sobre Coronavírus?

por Felipe Arthur Faustino de Medeiros
Residente de Infectologia
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Saindo um pouco dos temas relacionados à saúde LGBT diretamente, trazemos hoje um papo mais direito sobre Coronavírus, esse vírus respiratório que iniciou sua aparição no final de 2019, com grandes notícias nos últimos dias, trazendo muitas informações, muito questionamentos para várias pessoas e várias dúvidas. Tentarei aqui tirar algumas breves, trazendo em tópicos pra facilitar o entendimento de todos.

O que é o Coronavírus (também chamado de COVID-19)?

Coronavírus é um vírus que causa doença no trato respiratório das pessoas (doença nas vias áreas – garganta, nariz, seios da face, traqueia e pulmões). Acredita-se que o vírus tenha vindo inicialmente dos morcegos, e hoje sua transmissão seja pessoa-a-pessoa atrás das secreções do trato respiratório (saliva e tosse, por exemplo).

Quais os sintomas que podem ser observados em quem tem Coronavírus?

As manifestações são semelhantes às de uma gripe, como febre, coriza, tosse, dor de garganta, dor de cabeça, dor pelo corpo todo, dor muscular, falta de vontade de realizar as atividades diárias, ou até sintomas mais graves como falta de ar intensa, dificuldade de respirar, sonolência extrema e quedas de pressão importantes.

E como eu pego Coronavírus? Tem como evitar?

A transmissão da infecção por COVID-19 se da por contato com secreções respiratórias, como já dito, entre pessoas infectadas e não infectadas. Secreções essas as das vias respiratórias, ou seja, saliva e secreção que vem dos pulmões ao tossir ou escorrer do nariz.

Para evitar o contágio, pessoas sintomáticas respiratórias devem ficar afastadas do convívio social, tendo seu isolamento domiciliar. Em caso de necessidade de acessar locais públicos, a mesma deve utilizar máscara cirúrgica (aquela simples mesmo) para proteger os demais do contato com suas secreções. Além disso, é importante que TODAS AS PESSOAS utilizem álcool gel ou lavem as mãos com água e sabão ao ter contato com superfícies que possam ter secreções (corrimão de escada, apoios no transporte público, após tossir ou espirrar etc). É importante lembrar que o vírus pode ficar em superfícies algumas horas até morrer, por isso sempre que tiver contato com alguma superfície lave sua mão imediatamente, e não leve ela até boca, nariz ou olhos, pois esse locais são porta de entrada para o vírus entrar no seu corpo e disseminar a doença.

Eu devo procurar atendimento médico então em caso de algum desses sintomas?

Casos leves, semelhantes à gripe, sem repercussões de sintomas graves, devem se manter em casa atualmente, se afastando das atividades diárias, dos contatos com outras pessoas, tomar bastante líquido e em caso de dor ou febre, utilizar analgésicos para dores e febre e aguardar os sintomas melhorarem, que cessam em até 15 dias. Em casos mais graves, com febre que não melhora, falta de ar intensa ou quedas de pressão importante, você deve procurar imediatamente o pronto socorro mais próximo da sua residência para atendimento e orientações.

Quem são as pessoas que tem mais risco de ter doença grave?

Alguns grupos são considerados “grupos de risco” para doença grave, sendo eles pessoas idosas, pessoas que tem hipertensão (pressão alta), diabetes, pessoas que tomam medicações imunossupressoras

E o que devemos fazer nesse momento para evitar uma piora da nossa situação de Pandemia?

Se você pode, FIQUE EM CASA! Quarentena é uma realidade, precisamos parar a disseminação do vírus, ou ao menos diminuir a velocidade com que ele se espalha.

No último dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia para Coronavírus, alertando os países dos riscos associados à infecção, além de orientações na tentativa de barrar o avanço do número de casos. Seguir essas orientações ajudam a diminuir o número de casos a cada minuto, tentando minimizar a necessidade de internação e suporte intensivo para o tratamento do COVID-19, não sobrecarregando o sistema de saúde de uma só vez.

Além das medidas já citadas de caráter pessoal, como lavar as mãos e uso de máscara aos que tem sintomas, a quarentena é uma atitude que ajudará bastante a diminuir a disseminação dessa doença de transmissão respiratória. Por isso, eu reforço: se você pode trabalhar de casa, se sua empresa vai parar as atividades, sua escola ou faculdade não terá aulas, fique em casa. Maratone sua série, veja filmes, ouça música, medite, leia, porém não saia de casa se você pode. Nós profissionais de saúde estamos trabalhando para manter o atendimento aos que precisam, por isso não se exponham à riscos desnecessários e nos ajude a controlar a disseminação.

Muitas notícias estão sendo veiculadas todos os dias, e grande parte delas são fake News. Ainda não temos uma medicação ou tratamento que se mostre plenamente efetivo no combate ao Coronavírus, muito menos medicações para prevenir seu contágio. Não utilizem medicações sem prescrição médica. Não sabemos até quando teremos que ficar em isolamento social, quarentena, desviando nossas rotinas, porém pensemos nisso como uma atitude coletiva para segurar o Coronavírus e que logo tudo isso seja uma grande memória de vitória coletiva para todos.

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Prevenção Combinada: o Melhor dos Remédios

por Felipe Arthur Faustino de Medeiros
Residente de Infectologia
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Fevereiro no fim, levando com ele a grande festa brasileira: o Carnaval. Depois de muitos embalos e folias por todos os cantos do país, temos um grande momento para falar sobre prevenção para aquisição de HIV e outros IST. E aí, você que está lendo pode estar se perguntando: mas prevenção não vem antes? Pois é nesse contexto que entra esse texto trazendo algumas informações bem importantes sobre como se prevenir antes, durante e depois do sexo.

O conceito de prevenção combinada, voltada ao combate ao HIV e situações associadas a infecção, traz consigo ações biomédicas como por exemplo, o uso de PrEP, da PEP e o tratamento de todas as pessoas que convivem com HIV visando uma carga viral indetectável), ações comportamentais (como a testagem regular para HIV e outras IST e Hepatites Virais) e também intervenções estruturais, as quais são voltadas para abordagens com políticas públicas, aspectos socioculturais e econômicos, visando a garantia da abordagem do tema e garantir meios para que a mesma ocorra.

Abordarei nesse texto apenas partes do grande conceito da prevenção combinada, tentando trazer dois aspectos que julgo importantes nesse momento, pensando que a exposição já aconteceu. E ela pode ocorrer de diversas formas: o preservativo estourou, não se usou preservativo na relação de penetração, ou teve contato com sêmen na boca no sexo oral, compartilhou seringas no uso de substancias injetáveis etc. São várias maneiras de entrar em contato, mas o que não cabe em nenhum momento é o julgamento de certo ou errado nas atitudes tidas por você ou por outra pessoa durante o sexo, e sim o esclarecimento e busca por auxilio.

Se você se expos numa relação sexual, com contato com fluidos corporais, sem uso de proteção ou método de barreira, sem saber o status sorológico da mesma ou mesmo sem saber seu próprio, é hora de buscar um local para realizar a testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.

A testagem em centros de testagens e aconselhamento (CTA) é gratuita e disponível para todos que quiserem a mesma. Normalmente são realizados testes para HIV, Sífilis, Hepatite B e Hepatite C, sendo os mesmos na forma de testes rápidos, e em menos de uma hora a pessoa pode sair com todos esses resultados em mãos, acompanhados de aconselhamento por um profissional e saúde capacitado, além de encaminhamentos em caso de necessidade de acompanhamento e tratamento para as mesmas.

É sempre bom lembrar que se a exposição ocorreu hoje ou ontem, o teste que você faz pode não vir positivo. Temos que lembrar que as doenças tem suas janelas imunológicas, tempo em que o sistema imune demora para detecta-la e produzir anticorpos contra a mesma, mostrando assim a positividade nos testes. Por isso, a testagem regular é uma grande ferramenta de prevenção e pode ser realizada sempre que a pessoa se expor à uma situação em que julgue de risco de adquirir IST.

Pensando no agora, estourou a camisinha, eu não conheço ele/ela, o que eu faço? Os CTAs também são porta de entrada para a realizar de PEP (profilaxia pós-exposição), que consiste num método biomédico para a prevenção da aquisição do vírus do HIV. Após a exposição, você tem até 72hrs para buscar atendimento e iniciar a terapia antirretroviral para a profilaxia pós exposição.  Nesse método, a pessoa exposta tomará 28 dias de medicação para impedir que vírus entre em seu sistema e cause a infecção propriamente dita. Além da medicação, o acompanhamento será realizado de forma continuada e não apenas pontual, pois como dito anteriormente, a medicação serve para a prevenção apenas do HIV, e não das demais IST.

Temos que entender que a melhor forma de se prevenir é conversar sobre, se esclarecendo das formas de contágio das infecções, realizar testagem regular, procurar o auxílio no local correto, usar preservativos, usar PrEP, tratar o HIV e se manter indetectável que vão fazer com que consigamos reduzir os números de novas infecções e mortes por HIV e outras IST. As festas e os fervos continuam e devem continuar, o prazer nas relações importa e muito, e aliando o conhecimento de técnicas de prevenção tudo fica ainda melhor para todos.

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UM ESTADO QUASE LAICO E A PANDEMIA

por Artemis Zamis

Desde que este governo foi instalado em 1º de janeiro de 2019, que o Brasil vem sendo varrido por uma ideologia ultra conservadora neopentecostal, que em certos momentos, administradas em doses homeopáticas, em outros em dosagens acima do limite, vem causando distúrbios, polarizações cada vez maiores e conflitos ideológicos no nosso tão sonhado estado laico. Os ditos neopentecostais acharam em Jair Bolsonaro a válvula que faltava para que seus interesses fossem atendidos e por isso lhes deram, e ainda dão, apoio incondicional, sem até mesmo se importarem com suas bandeiras nada democráticas, tais como a misoginia, o racismo, a homofobia, a violência, o espirito de matador, entre outras qualificações nada relacionadas com o verdadeiro espírito cristão. Mas, e quem está mesmo preocupado com o verdadeiro espírito cristão? Quem acompanha as declarações de pastores neopentecostais nas redes sociais e do presidente, vai entender que o que menos importa hoje é o cristianismo em si. Nada se fala da doutrina cristã e nada se fala da figura de Jesus que pregava a humildade e a ajuda aos mais necessitados. Vivemos um estado “burrocrático” no país. Quando o presidente vai as redes sociais e a TV e declara que o estado é laico mas ele é terrivelmente cristão, demonstra sua total ignorância do assunto e prega na verdade uma vontade de implantar no país uma utópica teocracia ultra conservadora que ele mesmo sabe que nunca irá acontecer, mas que o faz por ser um fanfarrão assumido.

O fato é que os neopentecostais não estão muito para a brincadeira. Ao contrário, estão levando muito a sério a posição que nunca alcançaram na história da república e não estão dispostos em hipótese alguma de abdicar ou até mesmo de sequer abandonarem por um instante as posições que assumiram no establishment. Sua bancada na câmara e no congresso é atuante e agressiva no que diz respeito a defender os seus interesses.

Em todo esse imbróglio governamental, a triste constatação é que eles não trouxeram nenhum programa de governo de qualquer espécie, para qualquer setor, a não ser os de interesse puramente corporativos como fim de impostos, ideologia de gênero, proibição ao aborto, entre outras questões morais. Mas seu protagonismo está patente e latente a cada dia que passa e por onde passam. Nos corredores sombrios do planalto, circulam em quantidade tamanha que ofuscam os que de fato praticam política. A história nos mostra que onde existiu, ou existe, o fundamentalismo religioso, sempre está junto dele o retrocesso, atrocidades e autoritarismo.

A constituição nos coloca como um estado laico e assim deve ser. Toda e qualquer religião deve ser respeitada independente de sua doutrina ou de seus dogmas, exceto os charlatões que precisam ser denunciados, processados e julgados na forma da lei. O que não se pode admitir é que usurpem o poder da república e de lá determinem o que nós o povo, que tem suas várias religiões e crenças ou até mesmo nenhuma, a aceitarem suas doutrinas e regras fundamentalistas.

A pandemia que o mundo enfrenta, nos afeta de forma severa e nem estamos ainda no seu pico total que deve acontecer neste mês de abril e maio. O governo alheio as recomendações da OMS e de autoridades de saúde do seu próprio governo, ignora as recomendações expressas de isolamento social e como temos visto em suas andanças, promove aglomerações e debocha da pandemia com mensagens de efeito. Como se não bastasse, declarou em uma entrevista ao apoiador Ratinho que as igrejas são serviços essenciais e que deveriam continuar com seus cultos sem restrições. Com isso ele atende as várias reclamações de lideres neopentecostais que denominam a pandemia como um vírus maligno. Como vemos, a religião já está na república, agora mais influente e mais atuante, inclusive pautando nossos costumes e nosso cotidiano.

Quando há a inconstitucional mistura entre igreja e estado laico, podem ocorrer espetáculos grotescos e constrangedores como o jejum nacional endossado pelo presidente nesta semana, que fracassou como já era esperado. Confunde-se o Brasil com o Israel bíblico. Não somos esse Israel bíblico, nem adeptos de um único pensamento teológico. Somos livres para pensar, agir e viver no regime democrático que elegemos.

Devemos exigir do governo um tratamento sério, técnico e responsável da maior pandemia deste século. Não é hora de conjecturas, ideologias, religiosidades, ofensas, picuinhas internas. Nosso inimigo agora é o vírus e é ele que devemos combater. Lideres religiosos tem toda liberdade de opinarem e professarem suas religiões, mas sem se apoderarem e se aboletarem no estado para pautar comportamentos e conceitos morais de quem quer que seja.

Nem nós, nem o mundo será o mesmo depois dessa pandemia.  

É prudente que pensemos desde já o que podemos querer do amanhã.