UMA BREVE ANÁLISE DO GOLPE DE 64

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UMA BREVE ANÁLISE DO GOLPE DE 64

por Jacqueline Vallejo

Infelizmente vivemos um momento político em nosso país muito sério, onde o presidente da República tem como herói brasileiro nada menos que Carlos Brilhante Ustra é um “herói brasileiro”, um dos mais terríveis torturadores no período da ditadura militar (1964-1985).  Apoiado na mentira política moderna, que ataca a verdade factual, usa como estratégia o negacionismo, Bolsonaro e sua equipe, tendo como guru Olavo de Carvalho, pretendem reescrever a história, e reduzir a ciência em mera opinião.

Assim sendo, recorremos a uma análise da história brasileira, desse período tão conturbado e que de alguma forma ainda vive no imaginário da população, nas lembranças, nas dores, nas perdas, em movimentos, na luta. Nada deve mudar a verdade factual no mundo, a história é nosso registro e manteremos seu caráter inflexível, não deixaremos apagar ou criar mentiras a seu respeito.

Nos anos sessenta a industrialização restringida estava cedendo o lugar à industrialização pesada, implicando um novo padrão de acumulação. O modelo de desenvolvimento emergente supunha um crescimento acelerado de capacidade produtiva, penalizando fortemente as camadas trabalhadoras e permitindo um novo arranjo entre o Estado, o capital privado nacional e o capital estrangeiro. Esta expansão acarretou uma desaceleração do crescimento, alta inflação e queda na taxa de inversões.

Nas condições brasileiras de então, as requisições contra a exploração imperialista, acrescidas das reivindicações de participação popular, apontavam para uma ampla reestruturação do padrão do desenvolvimento econômico e uma democratização da sociedade e do Estado. As lutas sociais, um novo bloco de forças político-sociais, poderiam desembocar num quadro revolucionário. A consequência seria a reversão completa daquela particularidade da formação social brasileira, resultando numa perspectiva de revolução social. A sociedade brasileira se defrontava com um tensionamento crescente. A classe dominante consciente dessa evolução, e sintonizada com a contrarrevolução preventiva em escala mundial, impôs com a força o golpe, derrotando as forças democráticas, nacionais e populares. O movimento cívico-militar de abril foi reacionário, resgatou precisamente as piores tradições da sociedade brasileira. Seu real significado foi à destruição da possibilidade de superar a dependência e as amarras da economia brasileira aos interesses imperialistas e de democratizar fundamentalmente a sociedade brasileira.

A economia política da ditadura apresentava três traços marcantes. O primeiro foi o planejamento econômico estatal, que se transformou em poderosa força produtiva. O aparelho estatal, a serviço do capital monopolista, foi desenvolvido, aperfeiçoado ou “modernizado”, tendo as esferas da vida social controladas para garantir a segurança para o desenvolvimento do capital. Todo o peso do poder estatal foi colocado ao dispor do capital financeiro. O Estado mobilizou recursos políticos e organizacionais, científicos e técnicos para favorecer, orientar, reorientar, dinamizar ou diversificar as atividades produtivas. Com políticas de isenções de impostos, incentivos fiscais, de créditos, avais e outras, o Estado favoreceu enormemente a concentração e centralização do capital, usando também recursos do fundo público para a acumulação do capital monopolista. Com o Sistema Federal de Planejamento, todas as forças produtivas, e relações de produção, foram desenvolvidas, conseguindo assim arrancar uma taxa extraordinária de mais-valia da classe operária.

O segundo, Violência Estatal, técnica/política/economicamente, se transformou em poderosa força produtiva a serviço do capital, controlando a classe operária, favorecendo juntamente com o primeiro traço a extração de uma taxa extraordinária de mais-valia. Assim o Sistema Federal de Repressão entrou no processo de acumulação do capital, garantindo e reforçando a subordinação econômica e política dos trabalhadores. A violência política era mais visível, mas não era a única, presente também nos locais de trabalhos e em todas as esferas da vida social. A violência Estatal passa a ser uma potência econômica.

O terceiro e último traço foi o Capital Financeiro, que passou a designar a expressão e ações do Estado, sob a ótica monopolista. O aparelho Estatal serviu a grande burguesia financeira, agindo em pró do desenvolvimento do capital financeiro e monopolista. O desenvolvimento do planejamento e da violência estatal, vistos como forças produtivas, foram condição e produto do crescimento do capital financeiro. Sob condições monopolistas, os três setores produtivos do tripé foram largamente articulados pelo capital financeiro, tendo na maioria dos arranjos o predomínio do capital imperialista, que passou a determinar todas as relações sociais.

O período da ditadura empresarial-militar foi tenebroso, e podemos analisar como o grande capital opera de forma sempre a se expandir e manter a sua hegemonia, não levando em conta as vidas de milhões de pessoas que são irremediavelmente afetadas com seus acordos e arranjos sempre visando privilegiar a classe dominante em detrimento da classe subalterna. Nota-se que foi disseminado um ódio ao comunismo entre a população, vista até hoje, e que Jango não tinha nenhuma pretensão de instaurar um sistema comunista no país, mas ainda assim essa alegação vingou nos meios de comunicação e permeia nos pensamentos de algumas pessoas que viveram essa época. Ainda hoje vivemos sem uma emancipação política completa, já que nos é imposto o voto, mas não o direito ao amplo conhecimento do que envolve seu ato de votar e como isso tem impacto no nosso cotidiano.

O golpe de 64 foi uma vitória para o capitalismo no Brasil e uma derrota para democracia, e em especial para a classe trabalhadora, e o reflexo dessa vitória ainda é sentida e revivida com amargor no discurso do vice-presidente Mourão, que vem nos assombrar diante do quadro político que se apresenta.

Fica claro que quando a classe dominante se sente ameaçada pela classe subalterna, ela não mede esforços para manter sua hegemonia e é capaz dos atos mais bárbaros para isso.

Lutemos para que não tenhamos que enfrentar esse terror novamente.

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