NEOLIBERALISMO E A CRISE DO CORONAVÍRUS

por Jacqueline Vallejo

Neste momento, a nível mundial, nos encontramos no olho do furacão da pandemia de Covid-19, muitas especulações começam a aparecer a respeito do vírus, ora se lê que seja na realidade uma guerra biológica (fabricado em laboratório), ora uma evolução/mutação que pode ter sido transmitido por morcegos e passado de forma natural para o corpo humano e nele se tornado infeccioso e altamente transmissível. A origem desse vírus acredito que só a história irá contar. Mas podemos já iniciar nossas análises sobre o rearranjo a nível geopolítico que essa pandemia está sinalizando, e os impactos dessas mudanças.

Recorremos a história para entendermos nosso momento atual, como chegamos a essa derrocada econômica, e o desespero frente a pandemia que confronta o capitalismo na sua fase neoliberal.

Iniciamos com a ofensiva burguesa dos anos 80 e 90 e seu aprofundamento nos últimos anos, que nos aponta suas três direções centrais: a reestruturação produtiva, a mundialização do capital, e a contrarreforma neoliberal.

O neoliberalismo, a partir do final dos anos 70, assumiu governos com a programática conservadora, regressiva, resgatando ideias liberais. Tratou-se de uma contrarreforma tendo em mente que o Welfare State tinha “perigosos efeitos” como: desmotivação dos trabalhadores, concorrência desleal, baixa produtividade, burocratização, etc. Foi a busca de rentabilidade e mundialização tendo como orientações/condições a atratividade, adaptação, flexibilidade e competitividade.

A atratividade, como uma das funções econômicas do Estado, requereu novas relações com grupos mundiais, tornando ainda mais subordinado a eles. Com medidas como: cobrir custo de algumas infraestruturas, aplicar incentivos fiscais, garantir escoamentos e institucionalizar liberações, desregulamentações e flexibilidades no âmbito das relações de trabalho, o Estado garantindo toda uma estrutura a título de competitividade. Vale destacar também os processos de privatização, reduzindo as dimensões do setor público.

A mundialização, com tendência antidemocrática, necessita de um Estado forte e enxuto. O Estado-Nação por sua vez, pressiona político-economicamente os Estados nacionais com o capital financeiro e o papel das dívidas públicas. Mas esse modelo não é universalizante, difere entre os blocos centrais e periféricos dos países capitalistas. O primeiro não abrindo mão de sua soberania, enquanto o segundo sendo reorientado a retornar a sua “vocação natural” de exportação e desindustrialização (O Agro é Tech, o Agro é Pop, o Agro é tudo). Medidas como: conter o mercado interno, bloquear o crescimento dos salários e direitos sociais, aumentar as taxas de juros, diminuir os empregos formais decorrentes de fechamento ou enxugamento de empresas; dificultam o desempenho do Estado de regulamentação interna e impedem o avanço da democracia. Como podemos exemplificar com as medidas do PAC do fim do mundo.

E nesse ambiente de adaptação as novas condições da economia mundial, indicado pelo Banco Mundial e o FMI, cresce o pauperismo. A estratégia de enfrentamento da pobreza é orientada para os fundos sociais de emergência, com programas compensatórios, e incentivando a mobilização da “solidariedade” individual e voluntária, uma forma “cristã” de desresponsabilização do Estado frente a questão social.

Para garantir o consentimento e a legalização, o neoliberalismo lança mão do pensamento único, conjunto sistemático de ideias e medidas difundidas pelos meios de comunicação. A hegemonia do grande capital envolve as mudanças no mundo do trabalho, redefinindo o mercado. Com suporte ideológico chegamos ao limite do fetiche das mercadorias, transformando relações entre homens em relações entre coisas, ocultando a dominação e exploração entre indivíduos, grupos e classes sociais.

A existência de uma cultura da crise, que através da disputa ideológica legitima a contrarreforma do Estado e das políticas regressivas neoliberais, tem nas classes dominantes os difusores do pensamento privatista, meritocrático e a constituição do cidadão-consumidor, assegurando à adesão as transformações do mundo do trabalho e dos mercados, incentivando o empreendedorismo e os trabalhos informais (primeiros a padecer na crise, sem renda e sem proteção), já que as vagas de trabalho formal tendem a diminuir. Há o convencimento que existe apenas um caminho a trilhar, onde todos devem integrar e se adaptar. Para os não integrados, políticas de combate à pobreza, redes de proteção social, e se não adiantar, tem a polícia, política de “segurança”.

Os esforços estão voltados para os novos objetos de consenso, como a desqualificação teórica, política e histórica de alternativas progressistas e a negação de mecanismos de controle sobre o movimento do capital, em favor da regulação do mercado, aquele que tem uma mão invisível. Neste ponto, podemos verificar o resultado das últimas eleições no Brasil e nos EUA.

A interpretação e difusão da crise como ideologia vista como verdade e princípio orientador, são empreendidos pela extrema-direita, possuindo caráter conservador e alterando hábitos e consciências dos homens. O papel despótico da informação manipulada, transmitida para a maioria da humanidade, que não esclarece e sim confunde. A publicidade que forja necessidades, o consumo, os costumes, todos padronizados, homogeneizados e uniformizados, uma cultura de dominação que fortalece a “necessária adaptação”.

A lógica do Estado neoliberal, que em parceria com o capital privado, busca o consenso na sociedade civil, precariza o público, tornando impraticável o acesso, com o discurso falacioso que o Estado não tem competência, nem recursos financeiros para administrar os serviços, e que o que é público é de péssima qualidade, que necessário se faz privatizar para um bom atendimento. É a busca de novos horizontes de lucros para o capital monopolista. Quando a mídia noticia casos de escassez de material, ou falta de pagamento de funcionários públicos e terceirizados, o que querem apontar? Que precisamos diminuir o “gasto público”, precisamos fazer parcerias ou mesmo privatizar. E podemos ver isso na Educação, Saúde, Previdência, Sistema Penitenciário, etc… São grandes conglomerados que tomaram conta de tudo que a classe trabalhadora conquistou com lutas e que nos estão sendo tirados, nossos direitos subtraídos.

As facetas dessa contrarreforma econômica, intelectual e moral, que muito amparada com a mídia transforma a sociedade civil num palco de preconceitos, intolerâncias e barbárie, consolida a hegemonia de uma classe que dita às normas de comportamentos, desejos e até mesmo dos sonhos, somos teleguiados a consumir, a competir e a nos individualizar, eliminando toda e qualquer forma de compaixão e de sociabilidade. Sistema perverso que desumaniza frente a uma “questão social” maximizada, frente ao crescimento da pauperização absoluta e relativa.

E diante de todo esse panorama cultural, econômico e político, hoje, temos um presidente da República que diante de uma pandemia que já matou milhares no mundo, se apresenta ao povo com um discurso medíocre, genocida, sem embasamento científico nenhum, menosprezando todas as recomendações e atenções da OMS, pedindo a reabertura do comércio e das escolas e o fim do “confinamento em massa”. Nos faz crer que vivemos aqui no Brasil a Era da Ignorância, do reducionismo dos fatos, das opiniões, onde tudo é possível. E também da maldade, colocando em risco uma população em pró da economia. Essa economia neoliberal que se retroalimenta das crises e que se mostra totalmente frágil e inoperante diante de um vírus, pois com sua ganância, nega todos os recursos físicos e monetários, que seriam necessários para atravessarmos esse momento tão perigoso, que requer estrutura de saúde pública e responsabilidade do Estado em fornecer condições de vida aos seus cidadãos.

Após a passagem do coronavírus pelo mundo, nada ficará como antes e será o momento de grandes mudanças, o capitalismo não irá suportar a recessão, tanto tempo estagnado e sem lucros, e provavelmente o sistema terá que ser superado. Novas potências surgirão, revoluções serão necessárias e poderemos viver um pós-capitalismo, com viés socialista, onde reergueremos com muito trabalho, nossa dignidade, nossa humanidade, respeitando e valorizando o saber, o meio-ambiente, e a saúde física e mental.

Ter esperança por dias melhores ajuda a nos manter sãos, mas por hora, é FORA BOLSONARO para nos mantermos vivos.

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